Ela sonhou com uma Nossa Senhora coberta de corações e descobriu uma história que atravessava o Atlântico: aos 75 anos, artista brasileira transforma experiência em exposição na Itália
Publicado em 4 de setembro de 2026 às 16:17
Por Hernane Freitas | Colaborador TV e celebs
Amante do universo pop e das celebridades em geral. Não vivo sem música, uma boa xícara de chá verde e te dou as melhores recomendações de doramas.
Um sonho revelador com uma Nossa Senhora coberta de corações impulsionou uma jornada artística transatlântica. Aos 75 anos, a renomada artista brasileira Christina Oiticica transforma essa conexão espiritual em uma exposição singular na Itália
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Imagina sonhar com uma igreja que não conhecia, acordar com a imagem na cabeça e, no dia seguinte, receber de um amigo um vídeo que tinha uma ligação inesperada com aquela experiência? 

O episódio acabou dando origem a uma das obras que estarão na nova exposição de Christina Oiticica, artista visual brasileira com uma carreira marcada pela relação entre arte, natureza e espiritualidade. Aos 75 anos, ela apresenta trabalhos que foram modificados pelo contato com elementos naturais, em uma mostra que será realizada na Itália.

Intitulada 'Quando o Céu Invade a Terra', a exposição será aberta de 12 de setembro a 27 de outubro no Grand Hotel Majestic, às margens do Lago Maggiore, no norte do país. A curadoria é de Adelina von Fürstenberg, em colaboração com o arquiteto Marcelo José Mendonça.

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A 'Mamã Muxima' nasceu de um sonho 

Entre as obras selecionadas para a exposição está 'Mamã Muxima', um trabalho inédito que nasceu justamente daquele sonho com a igreja. Na ocasião, Christina imaginou que subia uma montanha com uma amiga para visitar uma igreja dedicada a Nossa Senhora da Conceição. O que viu no local e a descoberta que veio depois acabaram mudando o rumo da criação.

"Sonhei que subia uma montanha com uma amiga para visitar uma igreja dedicada à Nossa Senhora da Conceição. Quando entramos, estava tudo escuro e eu não conseguia ver a imagem. Só via uma figura vermelha. Pensei que pudesse ser São Sebastião ou Santo Expedito. Quando as luzes se acenderam, vi que era vermelho por ser uma Nossa Senhora coberta de corações", conta a artista.

"No dia seguinte, um amigo me enviou um vídeo de uma igreja no alto de uma montanha em Florianópolis, dedicada justamente à Nossa Senhora da Conceição. Resolvi pintá-la com os corações. Descobri depois, por acaso, a Nossa Senhora da Conceição da Muxima, em Angola, conhecida como a Nossa Senhora dos Corações e padroeira do país. Foi aí que nasceu 'Mamã Muxima'", completa Christina.

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Obra ficou três meses nas águas do Lago Maggiore

A criação não terminou no ateliê e, seguindo o método que Christina desenvolveu ao longo de sua carreira, a tela foi colocada em contato direto com a natureza. No dia 5 de junho, a artista mergulhou 'Mamã Muxima' nas águas do Lago Maggiore.

A pintura permanecerá submersa durante três meses na Isola San Giovanni Borromeo, localizada em frente ao hotel que receberá a exposição. A proposta é permitir que a água e os demais elementos do ambiente interfiram diretamente no resultado da obra.

Essa forma de trabalhar se tornou uma das principais características da trajetória de Christina Oiticica. Em vez de considerar a natureza apenas como inspiração, ela permite que chuva, sol, vento, água, terra e outros elementos alterem fisicamente suas telas.

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"Compreendi que o meu trabalho precisava sair das paredes do ateliê. Tornei-me uma parceira da natureza, e o meu trabalho recebeu a sua impressão digital", afirma a artista, que ao longo dos anos realizou intervenções na Amazônia, nos Pirineus franceses, Bahia, Japão e até nas Ilhas Eólias. Em cada experiência, o resultado depende das condições do local e do tempo em que a obra permanece exposta aos elementos.

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Como Christina começou a trabalhar com a natureza? 

Nascida no Rio de Janeiro, Christina vive em Genebra, na Suíça, desde 2008. Ela estudou na Escola Nacional de Belas Artes entre 1969 e 1975, cursou Arquitetura no Centro Universitário Bennett de 1976 a 1980 e também passou pelo Círculo de Belas Artes de Madrid, entre 1986 e 1990.

Sua produção artística sempre contemplou temas como o universo feminino, a fertilidade, a espiritualidade materna e os signos relacionados ao feminino. A mudança mais significativa em sua maneira de produzir aconteceu em 2003, quando se mudou para a região dos Pirineus, na França.

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Na época, Christina se preparava para uma exposição em Paris e precisava produzir telas de grandes dimensões. Como o hotel onde estava hospedada não tinha espaço para montar um ateliê, ela passou a trabalhar do lado de fora.

Foi então que percebeu que folhas e insetos haviam caído sobre as pinturas durante a noite e se misturado à tinta. O resultado chamou sua atenção e fez com que ela começasse a experimentar uma nova maneira de produzir, então, a partir daí, passou a enterrar telas, deixá-las em leitos de rios e prendê-las a árvores e outros pontos da natureza. 

O resultado nunca é previsível, já que cada ambiente interfere de uma maneira diferente na obra - e, para Christina, é justamente essa impossibilidade de reproduzir exatamente o mesmo processo que se tornou sua assinatura artística.

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'Quando o Céu Invade a Terra'

A exposição 'Quando o Céu Invade a Terra' ficará em cartaz de 12 de setembro a 27 de outubro no Grand Hotel Majestic, às margens do Lago Maggiore. Para Christina, a experiência iniciada décadas atrás nos Pirineus continua sendo uma forma de descobrir, em cada nova obra, como a natureza pode interferir no processo artístico.

"O título da exposição nasceu da ideia de que mudanças profundas acontecem quando o divino toca a realidade humana. As obras desta exposição foram transformadas pela água, pela terra, pelo sal e pelo ar. Da mesma forma, os textos que inspiraram algumas delas são transformadores. Quando o céu invade a terra, mudanças profundas acontecem nos corações dos seres humanos. E o inconsciente interfere no físico", diz a artista.

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