Marco Aurélio, filósofo: 'Tal será a sua inteligência quanto forem as coisas que você imagina com frequência; pois a alma é influenciada pelas suas representações'
Publicado em 20 de julho de 2026 às 11:03
Por Clara Espíndola | Colaboradora | TV, beleza e famosos
Viciada em novela desde criança, Clara é apaixonada por beleza, criada no teatro e troca qualquer programa por uma boa noite de fofoca.
Vamos treinar um pouco a mente para que nosso bem-estar não se perca entre ruminações mentais e loops infinitos
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É complicado encarar as situações que vivemos de uma maneira diferente daquela que as emoções nos ditam. E não é que tenhamos que abrir mão delas, mas sim que podemos redirecioná-las para, assim, conseguirmos ser um pouco mais felizes. A frase de Marco Aurélio, a felicidade da sua vida depende da qualidade dos seus pensamentos”, afirma que não são os fatos externos que determinam nosso bem-estar, mas sim como os interpretamos e avaliamos internamente. 

Ou seja, o que pensamos e organizamos dentro da nossa cabecinha molda nossa felicidade sem que percebamos.

A frase funciona como um resumo de toda uma ideia central da filosofia estoica: a dicotomia do controle desenvolvida por Epicteto. Nela, o que se faz é separar a vida em duas áreas: uma que depende de nós — nossos desejos, nossas opiniões, nossos pensamentos, nossas ações — e outra que não depende. 

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Ao concentrarmos nossa energia na primeira e aceitarmos a segunda, reduzimos a ansiedade e, com isso, nossa felicidade aumenta.

Embora a frase tenha se tornado uma das citações mais compartilhadas atribuídas a Marco Aurélio, na verdade ela não aparece literalmente em seu livro mais famoso, “Meditações”, embora conste em traduções inglesas posteriores, como a de Jeremy Collier no século XVIII. 

Seja uma paráfrase ou uma citação textual, essa reflexão do imperador romano é a síntese perfeita de algo que nunca saiu de moda. Ela tem mais de 2.000 anos, mas podemos continuar aplicando-a sem nenhum problema à vida atual.

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O que é qualidade do pensamento?

Quando Marco Aurélio se refere à “qualidade” dos seus pensamentos, ele não o faz a partir de uma formulação otimista. Não se trata de usarmos o filtro do bom astral e da positividade para mascarar a verdade, mas sim de avaliarmos o que ocorre de forma racional. 

Dessa forma, conseguiremos desenvolver julgamentos que não nos escravizem emocionalmente às circunstâncias externas. Não se trata simplesmente de pensar positivo, mas de refletir levando em conta o que realmente depende de nós e o que não depende, pois sobre o segundo não existe nenhum tipo de controle.

O que você imagina molda você

Dizia o estoico que “tal como forem as coisas que você imagina com frequência, assim será sua inteligência; pois a alma fica marcada pelas representações”. O que pensamos acaba nos transformando no que somos, porque a mente se molda de acordo com os pensamentos que repete. No estoicismo, essas “representações” (phantasiai) são as impressões que formamos da realidade. 

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Ou seja, como interpretamos o que acontece. Se tivéssemos que explicar isso com palavras um pouco mais atuais, poderíamos dizer que Marco Aurélio defende que “você não apenas reage ao mundo, mas também se constrói internamente a partir do que decide pensar”.

Vou dar um exemplo para que fique mais claro. Seu chefe diz que seu projeto não está no nível esperado e que é preciso refazer partes importantes. O fato objetivo é que há uma crítica e trabalho extra. Mas isso não é o importante. Se Marco Aurélio fosse seu conselheiro, ele diria que o que importa é a representação que você faz desse fato. Aí você tem duas opções:

  1. Ficar pensando incessantemente em coisas como “sou incompetente”, “nunca faço nada direito” ou “meu chefe está pensando em me demitir”, e remoer a mesma coisa sem parar. Se você fizer isso repetidamente, começará a trabalhar com medo das mudanças que seu chefe lhe pediu, evitará assumir novas responsabilidades porque se sente inseguro e até mesmo sua identidade passará a girar em torno de um fato (a crítica).
  2. É aí que se aplicaria o estoicismo de Marco Aurélio: o que diríamos a nós mesmos após fazer uma análise racional do que aconteceu é que criticaram nosso trabalho, mas não nossa pessoa; que há coisas a melhorar; que podemos aprender algo com isso. O fato (a crítica e o trabalho subsequente) é o mesmo. A representação que fazemos dele é diferente, e o que isso nos provoca também. Com essa representação, a emoção diminui de intensidade, o ego deixa de ser o centro das atenções, você não se define por um erro e age com mais clareza.

Afinal, somos o que pensamos, por mais que nos custe acreditar nisso. E treinar isso é possível; basta diminuir um pouco a intensidade das emoções para tentar enxergar a situação sob outra perspectiva, algo que podemos fazer com o journaling, por exemplo. Se você tiver dificuldade, experimente o exercício do “outro lado da moeda” proposto pelo psiquiatra Fernando Mora. Isso mudará radicalmente sua maneira de pensar.

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