Em 1851, o filósofo alemão Arthur Schopenhauer publicou “Parerga e Paralipomena”, sua obra mais importante. Nela, há um capítulo intitulado “Aforismos sobre a sabedoria da vida”, com uma filosofia muito mais prática e algumas de suas citações mais conhecidas sobre a vida, como esta:
“Os primeiros quarenta anos de nossa vida fornecem o texto; os trinta seguintes, o comentário sobre ele, que nos instrui na compreensão de seu verdadeiro sentido e coesão, bem como de sua moral e de todas as suas sutilezas”.
O que Schopenhauer quer dizer com essa metáfora literária é que, durante a primeira parte da vida, “escrevemos” experiências, erros, desejos e decisões. Uma vez superada essa primeira metade da vida e com mais distância, nós as interpretamos.
A ideia central não é que, depois dos 40, a vida comece, como dizia Carl Gustav Jung, mas que é a partir daí que se inicia uma etapa mais crítica do que foi vivido. Sem esse comentário posterior, não compreenderemos o sentido, a coerência nem a moral do texto inicial.
Em 1963, o psiquiatra Robert N. Butler descreveu uma tendência natural de repassar nossa biografia para reorganizá-la e dar-lhe sentido na velhice; e, de acordo com a teoria da identidade narrativa do psicólogo Dan P. McAdams, não somos apenas a soma do que nos aconteceu, mas a história que construímos a partir disso, e essa história é reescrita continuamente. É por isso que os mesmos fatos que vivemos na juventude podem mudar de significado dependendo de como os integramos décadas depois.
Ambos os conceitos são como a relação entre o texto e o comentário de Schopenhauer.
Existe algo chamado “reminiscence bump” ou pico de reminiscência, um fenômeno psicológico que descreve a tendência dos adultos — especialmente a partir dos 40 anos — de se lembrarem com mais clareza do que aconteceu entre os 15 e os 30 anos, pois é nesse período que nossa identidade se forma e algumas das decisões vitais mais importantes são tomadas. Schopenhauer afirma que, à medida que os anos passam, cada vez menos coisas nos parecem significativas o suficiente para serem lembradas e o tempo, de alguma forma, começa a “escorrer sem deixar rastros”.
A ideia é que o que vivemos nessa primeira fase, as decisões que tomamos e as pessoas que conhecemos revelam seu verdadeiro significado mais tarde, quando as vemos à distância, nessa segunda fase da vida. Schopenhauer sugere que vivemos parte de nossa vida sem compreender totalmente o que estamos vivendo e que a compreensão chega tarde porque “na juventude, é o aspecto externo das coisas que mais nos atrai; enquanto que na maturidade, o pensamento ou a reflexão predominam no espírito”.
Por isso, o filósofo afirma que “a juventude é a idade da poesia, e a velhice se inclina mais para a filosofia”. Essa primeira metade da vida, segundo o pensamento de Schopenhauer, é dominada por um desejo de felicidade que não conseguimos alcançar plenamente.
A segunda metade, por outro lado, é dominada pelo desejo de evitar a infelicidade, e não de obter mais prazer.
É quando chega o fim da vida que isso se revela de forma mais clara, pois, segundo o filósofo, “os últimos anos da vida se assemelham ao final de um baile de máscaras em que as máscaras caem”, afirmava ele.
O sentido da nossa vida é construído e reconstruído constantemente, e percebemos isso com muito mais clareza quando passamos dos 40, segundo Schopenhauer. Será que o tempo realmente nos torna mais sábios, até mesmo em relação às nossas próprias vidas?