Quem viveu os anos 80 sabe o poder que a televisão tinha dentro de casa. Eu era daquelas crianças que acordavam cedo para assistir ao "Xou da Xuxa", na Globo, em 1988. À noite, o Brasil inteiro parava para comentar a novela "Vale Tudo", de Gilberto Braga, e tentar descobrir “quem matou Odete Roitman?”. Ao mesmo tempo, o humor irreverente do "TV Pirata" fazia o público rir da própria televisão.
Enquanto isso, na minha casa, o ritual era sagrado. Todas as noites, às 19h30, a luz azul da TV iluminava o rosto dos meus pais acomodados nas poltronas já gastas pelo tempo. A voz marcante do "Jornal Nacional", apresentado principalmente por Cid Moreira e Celso Freitas, ecoava pela sala. Pratos afastados, controle remoto na mão e assim seguiam até a hora de dormir.
Durante quatro décadas, a rotina foi praticamente a mesma. Observando aquilo, prometi que faria diferente. Hoje, entendo perfeitamente o cansaço que nos empurra para o sofá. Mas também reconheço a sensação de vazio de ver a vida passar pela tela. Foi aí que resolvi mudar.
Depois de um dia longo, a TV parece acolhedora. Não exige esforço. Mas percebi que, se não tomasse decisões conscientes, repetiria exatamente o que vi durante toda a infância.
Foi então que comecei a criar novas formas de ocupar minhas noites.
A primeira decisão foi entrar em uma atividade semanal com horário fixo. Escolhi aulas de dança de salão às terças-feiras. No começo foi desconfortável. Mas quando há professor esperando e outras pessoas contando com você, desistir fica mais difícil. O segredo não é a dança em si, mas o compromisso.
Criei um período das 18h às 20h totalmente livre de telas. Nada de televisão, celular ou notícias. No início foi estranho. Depois, comecei a notar detalhes simples como a luz da tarde na cozinha e conversas mais verdadeiras com a família. O mundo não desmorona porque você ficou duas horas offline.
Aos 39 anos, peguei um violão pela primeira vez. Foi frustrante. Aos 45, comecei aulas de espanhol e voltei a me sentir adolescente tentando conjugar verbos. Mas existe algo libertador em ser iniciante novamente.
Toda quinta-feira ensino leitura em um centro comunitário. Ajudar um adulto a ler sua primeira frase muda nossa perspectiva sobre o que realmente é um “dia cansativo”.
Passei a tratar noites de semana como se fossem especiais. Um museu aberto à noite, um restaurante diferente ou uma caminhada pelo centro já quebram a rotina. Planejar antes ajuda a vencer a tentação do sofá.
Às 21h, preparo um chá e toco violão por meia hora. É inegociável. Não é produtividade. É prazer. Ter esse momento fixo virou uma âncora emocional.
Convites depois das 17h antes eram recusados automaticamente. Hoje, aceito primeiro e vejo depois como me sinto. Curiosamente, a energia aparece quando estamos entre pessoas queridas.
Não abandonei a televisão. Mas agora escolho o que assistir. Não deixo simplesmente ligada. É a diferença entre saborear uma refeição e beliscar qualquer coisa sem perceber.
Durante anos, perdi momentos importantes acreditando que um dia teria energia para viver de verdade. Hoje sei que energia não é algo que esperamos chegar. É algo que criamos quando escolhemos viver além da tela. E, para quem cresceu com Xuxa, Odete Roitman e o som solene do Jornal Nacional, talvez essa seja a maior virada de roteiro da nossa própria história.