O que parecia apenas mais uma rotina comum do dia a dia, como lavar roupas, agora ganha um peso totalmente diferente. Um estudo recente da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, trouxe à tona uma preocupação que vem mexendo com hábitos de consumo e até com a forma como olhamos para o nosso guarda-roupa.
Segundo a pesquisa conduzida pela Dra. Sutapa Ghosh, do Departamento de Farmacologia e Biologia do Câncer da Escola de Medicina da instituição, tecidos sintéticos podem estar associados ao desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, como o Parkinson.
As roupas feitas com materiais como poliéster, nylon e acrílico são produzidas a partir de derivados do petróleo. Durante o uso e, principalmente, na lavagem, essas peças liberam micro e nanoplásticos no ambiente. Esses fragmentos, praticamente invisíveis, não só poluem rios e oceanos, como também podem entrar no organismo humano.
De acordo com o estudo da Universidade de Duke, esses microplásticos podem interagir com a proteína "α-sinucleína" no sistema nervoso, provocando alterações estruturais diretamente ligadas ao desenvolvimento da doença de Parkinson. Além disso, quando essas fibras se fragmentam, deixam de ser estruturas estáveis e passam a formar compostos ainda mais reativos, ampliando os riscos biológicos.
Não é só o plástico em si que preocupa. Essas fibras funcionam como verdadeiros veículos de substâncias químicas. Elas podem carregar compostos como "Bisfenol A" e "Ftalatos", conhecidos por interferirem no sistema endócrino. E tem mais: ao circularem pela água, absorvem metais pesados e pesticidas, formando um coquetel tóxico que acaba entrando na cadeia alimentar.
Segundo relatório da União Internacional para a Conservação da Natureza, a simples lavagem de roupas sintéticas é responsável por cerca de 35% dos microplásticos primários despejados nos oceanos. Em apenas um ciclo de lavagem, mais de 1.900 microfibras podem ser liberadas.
O problema é maior do que parece. Dados da organização Textile Exchange, no relatório "Preferred Fiber & Materials Market", mostram que cerca de 60% das fibras têxteis produzidas no mundo são de poliéster. Isso transforma a indústria da moda em uma das maiores responsáveis indiretas pela poluição por microplásticos.
Essas partículas, que variam entre 1 e 1000 µm, já foram encontradas em alimentos como peixes, frutos do mar, cerveja e até mel. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que existam cerca de 51 trilhões de partículas plásticas nos oceanos, um número impressionante e alarmante.
Diante desse cenário, reduzir o uso de fibras sintéticas virou uma prioridade global. A União Europeia, por exemplo, pretende cortar em 30% a liberação de microplásticos até 2030, dentro do plano "Rumo a uma poluição zero no ar, na água e no solo".
Entre as soluções mais viáveis estão as fibras naturais, como o algodão. Diferente dos tecidos sintéticos, ele não libera microplásticos durante a lavagem e ainda é uma matéria-prima renovável. No Brasil, mais de 90% do algodão é cultivado em regime de sequeiro, ou seja, depende basicamente da água da chuva, reduzindo o impacto ambiental.
Diante de informações como essas, não é difícil entender por que muita gente tem repensado hábitos simples, como comprar roupas baratas em grande quantidade. O estudo da Universidade de Duke não apenas levanta um alerta científico, mas também provoca uma mudança de consciência.
Afinal, aquilo que vestimos todos os dias pode ir muito além de estilo e conforto. Pode impactar diretamente a nossa saúde e o futuro do planeta.
player2