Quando 'Beijo Explosivo' chegou à Netflix no final do último mês de novembro, muitos espectadores já tinham as expectativas clássicas de doramas: uma comédia romântica com uma mocinha ingênua que cai de amores pelo protagonista, com quem flerta timidamente ao longo de 10 episódios até que, depois de muitos toques de mãos, dá o primeiro beijo.
Mas Go Da-rim, interpretada pela maravilhosa Ahn Eun-jin, traça uma jornada contrária. Ela é uma mulher solteira de 30 anos, lutando para conseguir um emprego, que inventa ser casada e mãe para ser contratada em uma empresa de produtos infantis, mas acaba cruzando com seu novo chefe, Gong Ji-hyeok (Jang Ki-yong), por quem se interessa logo de cara.
O que tinha tudo para ser mais um dramalhão clássico coreano, daqueles que presenciamos desde a década de 2010, vira uma história interessantíssima e repleta de padrões quebrados sobre o amor e o quanto as aparências podem nos enganar. E o primeiro padrão quebrado vem logo com um beijo bem no início da história, o que normalmente demora bons episódios para desenrolar.
Logo nos primeiros episódios, Go Da-rim pode parecer impulsiva demais, exagerada ou até difícil de engolir, características que normalmente fazem muitos espectadores torcerem o nariz. Ela é super expressiva e tão comunicativa que se coloca em enrascadas pelas próprias atitudes, o que também rende algumas cenas hilárias e divertidas.
Porém, essa mesma protagonista é exatamente o que torna 'Beijo Explosivo' diferente de muitos doramas enlatados por aí. Ela não usa suas mentiras e disfarces por frescura romântica, mas por uma necessidade real de sobreviver e ajudar sua família, que não tem uma vida confortável e precisa dela, mesmo entre trancos e barrancos, para sobreviver com alguma dignidade.
Em outros doramas, costumamos ver a 'evolução' da protagonista feminina ser formada por uma mulher tímida que, aos poucos, vai se soltando e mostrando uma personalidade que encanta a todos. Mas, em 'Beijo Explosivo', Da-rim já chega na trama com uma personalidade intensa e um conjunto de questões próprias.
Ela não está ali apenas para ser resgatada ou 'moldada' pelo protagonista masculino. Pelo contrário, a pressão de manter sua farsa no trabalho, lidar com o julgamento da sociedade e ainda nutrir sentimentos confusos por seu chefe criam uma trama e muito mais real e instigante do que a mocinha padrão que só cresce por amor.
No mundo dos doramas, ainda se vê muita repetição de fórmulas: meninas doces demais crescendo por causa do herói, rivais exagerados, confusões baseadas em mal-entendidos bobos. Go Da-rim, por outro lado, é imperfeita, erra, se mete em ciladas, finge coisas que não deveria e ainda assim segue lutando.
Isso reflete bem um sentimento do mundo real de que a vida real é cheia de bagunça, e personagens que realmente vivem isso são mais interessantes do que meninas impecáveis em cenários perfeitos. E, ironicamente, é justamente por isso que a personagem está se tornando uma das minhas favoritas, apesar de minha antipatia inicial.
'Beijo Explosivo' como uma forma de humanizar uma protagonista que, aos poucos, se descobre mais forte e inteligente do que parecia à primeira vista. Em tempos de diversidade e protagonismo feminino, personagens como Go Da-rim mostram que os doramas podem ir além do clichê e abraçar protagonistas que não são perfeitas e nem adoráveis à primeira vista, mas são reais e importantes para o gênero evoluir.