Por que o relógio é o símbolo mais sincero do cinema de Christopher Nolan (e isso não tem nada a ver com física)
Publicado em 13 de julho de 2026 às 10:02
Por Paula Alves | Colaboradora
Jornalista apaixonada por cinema, streaming e entretenimento. Sempre em busca de boas histórias para contar.
Antes da estreia de 'A Odisseia' nos cinemas, vou mostrar um padrão que se repete filme após filme na obra do diretor
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Nos filmes de Christopher Nolan, o tempo está sempre presente. Às vezes, de forma literal, como o relógio que o diretor enviou a Hans Zimmer e que serviu de base para a trilha sonora de Dunkirk. Em outras, ele se manifesta visualmente.

Em “Amnésia”, Nolan brinca com o tempo em um ciclo infinito provocado pela perda de memória do protagonista. Já em “O Grande Truque”, o tempo se transforma em um artifício que engana tanto os personagens quanto o público.

O tempo é apenas a superfície da história

Para Nolan, o tempo não é apenas um recurso narrativo: é também um personagem e uma metáfora. Depois de pensar bastante sobre isso, cheguei à conclusão de que aquilo de que seus protagonistas realmente fogem são as próprias emoções.

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Você pode discordar, mas, depois de assistir à filmografia do diretor e como admiradora de seu trabalho, não consigo deixar de enxergar esse padrão. Por mais heroicos que sejam, seus personagens passam a vida correndo para evitar lidar com os próprios sentimentos. Visualmente, Nolan traduz essa ansiedade em uma obsessão por representar o tempo, tanto por meio das imagens quanto do som.

"Voltar" nunca é apenas voltar

Se você prestar atenção — e já aviso que, depois de notar isso pela primeira vez, será impossível deixar de perceber nas próximas sessões — verá que seus protagonistas seguem um padrão muito claro: todos estão fugindo das próprias emoções. E “A Odisseia”, que estreia em 17 de julho, pode muito bem ser mais um exemplo dessa ideia.

Nolan optou por fazer uma adaptação livre da obra de Homero, que narra a jornada de Odisseu, obrigado a passar dez anos tentando voltar para Ítaca enquanto foge da ira dos deuses.

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Os protagonistas de Nolan fazem algo parecido: a viagem, a missão ou a bomba que precisa ser construída antes do inimigo se tornam a desculpa perfeita para não voltar. E, aqui, "voltar" é um eufemismo para enfrentar aquilo que sentem.

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Como os personagens de Nolan fogem das próprias emoções

“A Origem” é o filme que melhor resume essa obsessão de Nolan por retratar a fuga emocional. Cobb era um arquiteto de sonhos, mas deixou de exercer essa função porque seu subconsciente invade suas criações sem pedir licença. É por isso que ele precisa de Ariadne como arquiteta.

Mal surge repetidamente em seus sonhos porque representa justamente a culpa da qual ele tenta escapar. Cobb é capaz de manipular a física dos sonhos e entrar na mente de outras pessoas para reescrever suas lembranças, mas não consegue elaborar o próprio luto. Por isso, está sempre fugindo das próprias emoções.

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Bruce Wayne veste a própria fuga

Outro exemplo bastante claro é Bruce Wayne. Na minha opinião — e não abro mão dela — o melhor Batman da história do cinema é o de Christopher Nolan.

Com Bruce Wayne acontece algo semelhante ao que vemos com Cobb, só que sua fuga veste uma capa e assume a forma de um morcego. Mais do que uma ferramenta para intimidar os criminosos de Gotham, o traje do Batman parece uma maneira de adiar indefinidamente o enfrentamento de um trauma de infância.

Enquanto houver uma cidade para salvar, Wayne não precisa se sentar sozinho e encarar a pergunta sobre quem realmente é por trás da máscara.

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Em ‘Oppenheimer’, já não há para onde correr

Em “Oppenheimer”, o protagonista constrói a bomba para não precisar pensar no que significa criá-la. Mas, depois que ela é detonada, já não há mais para onde fugir. Essa talvez seja a forma mais extrema de fuga retratada por Nolan, porque Oppenheimer tenta escapar da própria criação, consumido pela culpa que ela desperta.

Mais uma vez, temos um protagonista tentando evitar as próprias emoções. Você pode argumentar que isso faz parte do arquétipo do "herói ferido", mas o que diferencia Nolan de tantos outros diretores é que a própria estrutura de seus filmes transforma a fuga em linguagem narrativa.

O tempo como reflexo da ansiedade

É aí que entra Hans Zimmer, que há anos transforma essa ansiedade em som. Em “Dunkirk”, ele construiu toda a trilha sonora em torno da escala de Shepard, uma ilusão auditiva que nos faz perceber um som como se ele estivesse subindo ou descendo de tom continuamente, em um movimento infinito. O efeito provoca uma sensação constante de tensão e ansiedade.

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Já em “Interestelar”, na cena do planeta das ondas, cada batida da trilha acontece a cada 1,25 segundo e equivale exatamente a um dia inteiro que se passa na Terra.

A narrativa também foge da linha reta

Essa ideia também aparece nas estruturas narrativas de Nolan, em que diferentes linhas temporais se entrelaçam.

“Amnésia” é contado de trás para frente porque seu protagonista é incapaz de sustentar uma percepção linear do tempo. “Dunkirk” combina três cronologias distintas — uma semana, um dia e uma hora — que só se encaixam completamente no desfecho, adiando ao máximo a resolução da história. Já em “A Origem”, cada novo nível do sonho cria mais uma camada na qual Cobb pode continuar adiando o confronto com a culpa.

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Nolan monta seus filmes da mesma forma que constrói seus protagonistas: de maneira fragmentada e nunca linear. A narrativa não flui de forma contínua porque as emoções de seus personagens também não fluem, e essa é uma maneira brilhante de transmitir isso sem precisar explicá-lo em palavras.

Seus protagonistas não fogem apenas dentro de uma história contada de forma convencional. Nolan cria mecanismos narrativos que lhes permitem adiar indefinidamente o fim do luto: às vezes são ciclos temporais, outras vezes camadas de sonhos e, agora, talvez seja uma longa jornada de volta a Ítaca depois da guerra.

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