'Se a gentalha continuar falando da senhora, simplesmente não leia essa porcaria': Marie Curie e Albert Einstein se conheceram em 1911 e foram amigos durante 20 anos; um século depois, finalmente sabemos o que eles escreveram um para o outro em suas cartas
Publicado em 22 de outubro de 2026 às 17:06
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Por Paula Alves | Colaboradora
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Ele revolucionou a física com sua teoria da relatividade, e ela é a única mulher a ganhar dois prêmios Nobel em duas áreas científicas diferentes
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No verão de 1913, em um vale alpino no leste da Suíça, dois gênios passavam as férias juntos. Marie Curie se recuperava de alguns problemas de saúde e passeava com suas filhas, Irène e Ève. Albert Einstein estava acompanhado de seu filho Hans Albert.

Todos caminhavam juntos quando Einstein segurou o braço de Curie, parou e lhe disse: “Entenda que o que eu preciso saber é o que exatamente acontece com os passageiros de um elevador quando ele cai no vazio”.

Os dois se conheceram em outubro de 1911, durante a primeira Conferência Solvay, em Bruxelas, cujo tema central foi “Radiação e quanta” e que abordou o choque entre a física clássica e a nascente teoria quântica.

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A amizade durou 20 anos e, como escreveu sua própria filha caçula, Ève, na biografia “Madame Curie”, “eles se admiravam mutuamente; sua amizade era franca e leal, e adoravam manter conversas intermináveis sobre física teórica, às vezes em francês, outras em alemão”.

Agora, essas cartas estão ao alcance de qualquer pessoa que queira lê-las, pois, cerca de 100 anos depois, foram reunidas em outro livro.

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Ewa Łabno-Falęcka reuniu 25 cartas e um cartão-postal trocados entre Curie e Einstein entre 1911 e 1932. O material deu origem ao livro “Maria Skłodowska-Curie Albert Einstein The Letters”.

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Publicado pela Fundação para o Desenvolvimento da Educação para a Indústria, em colaboração com o Museu Maria Skłodowska-Curie de Varsóvia, o volume contém correspondências inéditas e desconhecidas entre Maria Skłodowska-Curie e Albert Einstein.

Ele revolucionou a física com sua teoria da relatividade, e ela é a única mulher a ganhar dois prêmios Nobel em duas áreas científicas diferentes. O curioso é que eles raramente falavam de ciência.

Para reunir todas as cartas, a autora precisou vasculhar os mais de 85 mil documentos deixados por Einstein e a correspondência de Curie, parte dela ainda coberta de poeira radioativa, assim como seus cadernos.

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Nas cartas, porém, é possível perceber como os dois eram diferentes. As dele eram datilografadas em alemão e transbordavam expressividade e respeito pela colega. As dela, escritas à mão em francês, revelam uma pessoa pragmática e discreta.

Pouco depois de se conhecerem, Curie escreveu uma carta de recomendação para Einstein, que, naquela época, tinha apenas 31 anos. Ela já demonstrava um profundo respeito pelo trabalho dele quando a ETH lhe pediu referências para uma cátedra de física teórica. Na carta, datada de 17 de novembro de 1911, escreveu o seguinte:

“Tenho grande admiração pelos trabalhos que o senhor Einstein publicou sobre questões da física teórica moderna. Acredito que os especialistas em física matemática concordam em considerar sua obra de primeiríssima ordem. Em Bruxelas, onde assisti a uma conferência científica da qual o senhor Einstein participou, pude apreciar a clareza de sua inteligência, a sutileza com que interpreta os fatos e a profundidade de seus conhecimentos. [...] A universidade que souber atrair esse jovem mestre certamente terá nisso uma grande honra.”

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Embora Curie tenha afirmado que “a vida não é fácil para ninguém”, a época em que começaram a trocar correspondências foi especialmente complicada. 

A cientista era viúva, mas circulavam rumores de que mantinha um relacionamento com um homem casado e, além disso, mais jovem do que ela.

Einstein lhe escreveu uma primeira carta na qual fazia referência à campanha de difamação promovida pela imprensa francesa contra a cientista e se mostrava um verdadeiro fã de seu trabalho:

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“Muito estimada senhora Curie:

Não ria de mim por lhe escrever sem ter nada sensato a dizer. Mas estou tão enfurecido com a maneira tão vil como o público se atreve, atualmente, a se ocupar da senhora que preciso, absolutamente, dar vazão a esse sentimento. No entanto, estou convencido de que a senhora despreza sistematicamente essa gentalha, tanto quando ela lhe presta respeito de maneira servil quanto quando tenta saciar sua sede de sensacionalismo.

Sinto-me obrigado a lhe dizer o quanto passei a admirar seu intelecto, sua determinação e sua honestidade, e que me considero afortunado por tê-la conhecido pessoalmente em Bruxelas. Qualquer pessoa que não esteja entre esses répteis se alegra, agora como antes, por termos entre nós personalidades como a senhora e também Langevin, pessoas autênticas com as quais nos sentimos privilegiados de manter contato. Se a gentalha continuar falando da senhora, simplesmente não leia essa porcaria, mas deixe-a para o réptil para o qual foi produzida.

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Com as mais cordiais saudações à senhora, a Langevin e a Perrin, atenciosamente,

A. Einstein

P.S. Determinei a lei estatística do movimento da molécula diatômica no campo de radiação de Planck por meio de uma ideia curiosa, naturalmente sob a restrição de que o movimento da estrutura segue as leis da mecânica convencional. No entanto, minha esperança de que essa lei seja válida na realidade é muito pequena.”

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— Albert Einstein, 23 de novembro de 1911."

Depois dessa primeira carta, os dois continuaram trocando correspondências, nas quais conversavam sobre os problemas sociais e políticos de sua época.

Por exemplo, quando ambos trabalhavam em um acordo transnacional na Comissão Internacional de Cooperação Intelectual da Sociedade das Nações, em Genebra, Einstein se mostrou cético quanto à possibilidade de tal acordo, pois estava preocupado com o crescente antissemitismo na Alemanha.

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Curie tentou convencê-lo de que somente assim a ciência poderia ajudar a resolver os problemas da humanidade.

Como disse Einstein em seu livro “Minhas ideias e opiniões”, “foi uma grande sorte para mim poder conviver com a senhora Curie durante 20 anos de sublime e perene amizade”. 

Agora, graças às cartas, é possível conhecer um pouco mais dessa relação única na história.

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