Poucas frases sobre dinheiro provocam tanta discussão quanto a ideia de que 'dinheiro não traz felicidade'. Afinal, se dinheiro não fosse importante para uma vida melhor, por que tanta gente passa anos querendo ter mais e mais?
O psicólogo e Nobel de Economia Daniel Kahneman encontrou uma forma mais precisa de colocar essa questão, e sua reflexão é bem menos confortável do que o clichê. “Dinheiro não compra felicidade, mas a falta de dinheiro compra infelicidade.”
Em suma, ele quer dizer que o dinheiro pode não ser suficiente para tornar alguém feliz, mas a falta dele pode criar uma série de problemas capazes de comprometer profundamente a qualidade de vida.
E, sejamos honestos que o dinhero resolve, inicialmente, questões básicas como como moradia, alimentação, saúde, educação e segurança. Na sequência, abre espaço para lazer. O dinheiro, nesse sentido, não precisa comprar felicidade: muitas vezes, ele simplesmente remove algumas das razões para estar infeliz.
A televisão oferece dois exemplos interessantes dessa discussão, ainda que em situações completamente diferentes.
Em 'Avenida Brasil', atualmente em reprise na Globo, Nilo (José de Abreu) representa o homem que parece acreditar que dinheiro resolveria tudo. O personagem quer enriquecer a qualquer custo e não mede esforços para conseguir vantagens.
Só que suas armações não o transformam em uma pessoa verdadeiramente feliz. Mesmo quando consegue algum dinheiro, continuam presentes a amargura, a solidão e o comportamento autodestrutivo.
Já em 'Quem Ama Cuida', Pilar Brandão (Isabel Teixeira) está no extremo oposto. A vilã fez praticamente tudo para colocar as mãos na fortuna do irmão, Arthur, e hoje desfruta de uma vida confortável.
Só que riqueza não conseguiu preencher o vazio emocional da personagem. Pilar continua amarga, desconfiada e incapaz de estabelecer relações verdadeiramente afetuosas.
É justamente aí que a frase de Kahneman ganha força. A falta de dinheiro pode gerar ansiedade, insegurança e uma preocupação constante com o futuro. Mas isso não significa que quanto mais dinheiro alguém tiver, mais feliz será.
Depois de determinado nível de segurança e conforto, aumentar a renda não necessariamente produz um aumento proporcional de satisfação, como sentimentos de afeto, propósito, vínculos verdadeiros ou paz interior.
E talvez seja justamente essa a grande provocação deixada por Kahneman: o problema não está em querer dinheiro, mas em imaginar que ele sozinho será capaz de resolver aquilo que falta dentro de nós.
No fim, talvez dinheiro não compre felicidade mesmo. Mas a ausência dele pode tornar a busca por felicidade muito mais difícil.