Byung-Chul Han, filósofo: 'A felicidade vem do trabalho manual. Sem as mãos, não há espaço nem para a felicidade, nem para o pensamento, nem para a ação'
Publicado em 20 de julho de 2026 às 10:43
Por Hernane Freitas | Colaborador TV e celebs
Amante do universo pop e das celebridades em geral. Não vivo sem música, uma boa xícara de chá verde e te dou as melhores recomendações de doramas.
Redescobrir o trabalho manual e o prazer de fazer algo longe de uma tela é uma forma de resistência
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Para Byung-Chul Han, filósofo alemão de origem sul-coreana, existe um problema global que afeta a forma como vivemos hoje. Em seus livros, especialmente em 'A Sociedade do Cansaço', Han defende que vivemos em uma sociedade na qual exigimos demais de nós mesmos, e esse excesso de atividade mental e de busca constante por desempenho acaba fazendo mais mal do que bem. 

Essa hiperatividade nos afasta da capacidade de parar, contemplar e simplesmente existir. Ao criticar uma sociedade adoecida pelo excesso de positividade, o filósofo propõe que redescubramos o valor do silêncio e da pausa. E, para isso, ele acredita que nada é melhor do que trabalhar com as mãos. É aí, segundo ele, que a felicidade se esconde.

Em entrevista ao 'El País', após receber o Prêmio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades, Han afirmou que "a felicidade vem do trabalho manual", acrescentando que "sem mãos não há felicidade, nem pensamento, nem ação". 

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Ele não é o único filósofo a defender essa ideia. Martin Heidegger, em 'Ser e Tempo', argumentava que o ser humano não é apenas um "cérebro pensante", mas alguém que habita o mundo e cuja inteligência nasce da ação. Han segue essa mesma linha ao afirmar que o pensamento tem origem nas nossas mãos.

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A psicologia também aponta benefícios do trabalho manual para reduzir a ansiedade

Embora Han trate desse tema sob uma perspectiva filosófica, a psicologia também oferece argumentos semelhantes. A teoria da cognição corporificada, por exemplo, propõe que a mente não está restrita ao cérebro, mas é moldada pelo corpo e pelas interações físicas com o ambiente. Estudos mostram que os movimentos das mãos favorecem a compreensão, facilitam o raciocínio abstrato e tornam o aprendizado mais profundo.

Há ainda outra explicação. O psicólogo Mihály Csikszentmihályi relaciona o famoso estado de fluxo ao uso das mãos. Em seu livro 'Flow: A Psicologia da Experiência Ótima', ele descreve uma de suas principais conclusões: "As pessoas relatam experimentar o estado de fluxo com mais facilidade quando envolvidas em atividades que exigem habilidade e concentração, muitas delas manuais: tocar instrumentos, pintar, trabalhar com madeira, tricotar, cozinhar ou praticar esportes". 

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Essas atividades ajudam a reduzir a ansiedade, diminuem a ruminação mental e contribuem para a redução dos níveis de cortisol. Por isso, são frequentemente utilizadas em terapias ocupacionais e em tratamentos para ansiedade. Em outra entrevista, Han contou que tocar piano faz parte da sua rotina diária. "Preciso tocar piano todos os dias, senão fico doente", declarou. 

Na mesma conversa, confessou ser "extremamente preguiçoso" e disse que passa boa parte do tempo cuidando do jardim, além de tocar piano. "Depois, talvez eu me sente à minha mesa por uma hora. Talvez escreva três frases por dia, que depois se transformam em um livro. Mas eu não tento escrever, não. Eu recebo pensamentos".

O corpo ajuda a ser feliz, segundo Byung-Chul Han

Essa forma de viver reflete exatamente o que ele defende em seus livros: que "sob a compulsão da performance e da produção, não há liberdade possível. Eu me forço a produzir mais, a ter um desempenho melhor, eu me otimizo até a exaustão — isso não é liberdade." Ao agir dessa maneira, Han vai na contramão de uma sociedade que exige produtividade o tempo todo. Para ele, recuperar o contato com a própria experiência interior e permitir-se fazer pausas é uma forma de resistência e também uma maneira de despertar a mente.

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"Ficar em casa é a forma mais lúcida de resistência", afirmou ao receber o prêmio. Talvez seja justamente nesse gesto que esteja uma parte da verdadeira felicidade: fazer algo com as mãos sem a obrigação de produzir mais ou ser mais eficiente, apenas pelo prazer da atividade. Para Han, pensar, agir e ser feliz exige contato com a realidade, e esse contato acontece por meio do corpo. Talvez seja hora de redescobrir esse caminho, porque nosso bem-estar tende a agradecer.

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