Byung-Chul Han, filósofo: 'O amor não é posse e domínio do outro, mas aceitação de sua alteridade'
Publicado em 26 de maio de 2026 às 09:24
O amor não é o que a sociedade nos faz acreditar que é, e não podemos consumi-lo como se fosse uma camiseta ou um filme
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O amor tornou-se mais um objeto de consumo. Byung-Chul Han reflete sobre a proclamação neoliberal da liberdade e o capitalismo que move tudo, e afirma que “ela elimina a alteridade para submeter tudo ao consumo, à exposição como mercadoria”, em ‘A agonia do Eros’. 

Segundo sua filosofia, vivemos em uma sociedade narcisista. Uma sociedade depressiva e consumista. Uma sociedade exausta. E o amor não está isento disso. 

Han afirma que a sociedade atribuiu a ele o atributo de produto de consumo, algo muito semelhante ao que expõe Zygmunt Bauman em seu famoso “Amor líquido”. 

O problema disso é que as relações se tornam mais frágeis, mais difusas, mais egocêntricas e, como explicava Han em seu livro, não olhamos para os outros para aprofundar uma relação, mas como se essa pessoa fosse mais um objeto a ser consumido. 

Veja o Tinder, uma suposta “rede social” que, na verdade, é uma vitrine de corpos e rostos, como seria uma prateleira cheia de roupas em uma loja. Eles compartilham o mesmo conceito: estamos prontos para ser consumidos. 

A tudo isso se soma o fato de que, para Han, nesta sociedade em que vivemos, estamos cada vez mais parecidos uns com os outros. Ou, pelo menos, tentamos. Rostos iguais, estilos de vida igualmente iguais, pensamentos iguais. 

Como ovelhas que fazem parte de um rebanho, mas que perderam sua individualidade. Tudo parece projetado para que você nunca se sinta incomodado nem encontre algo que realmente o choque, e para afastá-lo daquilo que o incomoda. 

O resultado é que “no inferno da uniformidade, ao qual a sociedade atual se assemelha cada vez mais, não há nenhuma experiência erótica”, segundo Han.

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É nas nossas diferenças (e em tolerá-las) que reside o verdadeiro amor

Por outro lado, para o filósofo coreano, “o amor interrompe a perspectiva do um e faz surgir o mundo a partir do ponto de vista do outro, da diferença”; por isso, em vez de fugirmos do diferente ou do que nos estranha, seja de que forma for, devemos dar uma chance de conhecer essa pessoa, pois é da nossa diferença que nasce o amor. 

Não se trata daquele pensamento batido de que os opostos se atraem. Tampouco é uma questão de termos nos acostumado a ser tão exigentes no amor. É mais o fato de que aquilo que outra pessoa faz de diferente ou que sentimos de diferente, nós afastamos. 

Para Han, a outra pessoa que amamos é alguém que não podemos reduzir a nós mesmos. Alguém que não compreendemos totalmente e que, segundo o filósofo, é o que há de mais valioso, pois devemos nos relacionar a partir da alteridade e ver a outra pessoa como alguém que existe, que tem uma vida interior própria e suas próprias peculiaridades, pensamentos e formas de agir. 

A alteridade de Han consiste em respeitar que o outro é irremediavelmente diferente de você e não é de sua posse. Que você não pode classificá-lo nem compreendê-lo totalmente, e “o amor é sempre uma alteridade”, como escreveu Han em ‘A expulsão do diferente’. Tolerar essas diferenças e ver o potencial nelas é, na verdade, o amor para o filósofo.

Han sustenta que, se você ama alguém que é exatamente como você, que pensa igual a você e que sempre lhe dá razão, e vocês se encaixam perfeitamente no mundo um do outro por serem tão parecidos, isso não é amor, mas narcisismo com parceiro, porque “o amor interrompe a perspectiva de um e faz surgir o mundo a partir do ponto de vista do outro, da diferença”. 

Sem essa diferença, não é amor. Psicólogos como Otto Kernberg descrevem o vazio interior do narcisista como uma dependência paradoxal do olhar do outro, ao mesmo tempo em que o anula, e em “A expulsão do diferente”, Han escreveu algo semelhante ao afirmar que “o sujeito narcisista apenas percebe o mundo nas nuances de si mesmo. A consequência fatal disso é que o outro desaparece”. 

“O amor não nos torna cegos, mas sim perspicazes”, como escreveu o filósofo, porque, para amar de verdade, é preciso ver o outro como ele realmente é, e não como gostaríamos que ele fosse. 

Talvez devêssemos fazer um exercício para treinar nosso olhar a ver, em toda a sua plenitude, as pessoas que nos rodeiam. Mas, acima de tudo, para apreciar, em suas diferenças, a riqueza que elas podem trazer para nossas vidas.

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Por Clara Espíndola | Colaborador
Viciada em novela desde criança, Clara é apaixonada por beleza, criada no teatro e troca qualquer programa por uma boa noite de fofoca.
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