Fazer compras sem gastar um centavo: na Coreia do Sul, os 'sites da dopamina' estão na moda; isto dá razão ao filósofo Zygmunt Bauman: não sabemos como ser felizes
Publicado em 20 de julho de 2026 às 13:27
Por Paula Alves | Colaboradora
Jornalista apaixonada por cinema, streaming e entretenimento. Sempre em busca de boas histórias para contar.
Mais do que um problema, esse fenômeno é um sintoma de como o consumismo acabou nos consumindo
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Quando tenho um dia realmente ruim — daqueles em que parece que tudo deu errado — costumo fazer uma de duas coisas: olhar fotos e vídeos de viagens ou comprar alguma coisa.

Pode ser um livro, uma camiseta, um perfume... tanto faz. O produto em si pouco importa. O que eu quero mesmo é aquela pequena descarga de dopamina capaz de me tirar, ainda que por alguns minutos, da espiral de sentimentos negativos em que estou.

Não sou a única. Na Coreia do Sul, isso já é bem conhecido. Mas eles também sabem que nem todo mundo pode se dar ao luxo de fazer uma compra impulsiva sempre que está passando por um momento difícil — principalmente quando esses dias ruins se tornam frequentes. 

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Foi daí que surgiram os chamados dopamine sites, ou "sites da dopamina".

O que são os 'sites da dopamina'?

Essas plataformas reproduzem toda a experiência de fazer uma compra, mas sem que ela realmente aconteça. Existem até serviços de entrega de comida, como o FoodNeverComes.

Neles, é possível escolher os produtos, ler avaliações, adicionar itens ao carrinho, informar um endereço, preencher os dados de um cartão fictício para concluir o pagamento e, em alguns casos, até acompanhar um entregador virtual a caminho da sua casa.

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A diferença é que a compra nunca é concluída de verdade. O produto jamais será entregue porque, na prática, nada foi comprado. Tudo não passa de uma simulação — quase como em Matrix.

Uma compra que nunca chega

São plataformas que permitem viver toda a experiência da compra sem gastar um centavo e sem receber qualquer produto. Não se trata de um golpe nem de uma tentativa de roubo de dados (phishing), porque quem acessa esses sites sabe desde o início que a transação é fictícia.

Os dopamine sites são apresentados como uma forma de aliviar o tédio, economizar dinheiro e até oferecer um momento de "descanso". Mas, no fundo, refletem algo muito mais profundo: uma sociedade que parece ter perdido a capacidade de encontrar satisfação fora do consumo.

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Esses sites existem porque o consumismo nos consumiu a tal ponto que já não sabemos como ser felizes sem ele. Estamos tão condicionados a consumir que, como já dizia o filósofo Zygmunt Bauman, quase todas as nossas ideias de felicidade acabam, inevitavelmente, dentro de uma loja.

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Por que isso gera prazer?

Quando realizamos todo o processo de uma compra, o sistema de recompensa do cérebro é ativado e ocorre a liberação de dopamina. 

Trata-se de uma descarga rápida, associada ao prazer imediato, que proporciona um alívio tão passageiro quanto assistir a um vídeo no TikTok.

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O The Korea Times contou a história de Kim, um funcionário de escritório de 25 anos que acessa um site que imita um aplicativo de entrega de comida. Ele escolhe os pratos, adiciona tudo ao carrinho e simula um pedido porque, segundo ele, "de certa forma, sinto como se realmente tivesse feito um pedido".

A expectativa pela compra costuma gerar uma recompensa psicológica tão grande quanto — e, em alguns casos, até maior do que — a compra em si. Além disso, como explicou a professora Megan McCoy ao The Washington Post, fazer compras também proporciona uma sensação de controle.

"Decisões aparentemente simples, como escolher entre duas cores ou comparar preços, podem transmitir uma sensação de controle que ajuda a aliviar temporariamente emoções negativas, como ansiedade, depressão e estresse."

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Mais do que uma simulação, um sintoma

Mas esse fenômeno não representa apenas uma simulação de compra: ele também é um sintoma de algo maior.

Em entrevista, a psiquiatra Ana Isabel Sanz, especialista em transtornos afetivos e eleita a melhor psiquiatra da Europa, afirmou que "reduzir esse tipo de comportamento apenas à ação da dopamina simplifica demais processos neurobiológicos extremamente complexos". 

Ao mesmo tempo, ela destaca que a existência desses sites "reflete até que ponto tentamos preencher carências emocionais com objetos materiais".

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A pergunta que realmente importa

A psicóloga Gabrielle Schreyer-Hoffman fez uma análise semelhante em entrevista ao Mashable.

"Observamos que as pessoas usam as redes sociais, as compras online e os pedidos de comida para preencher vazios e evitar estar presentes no momento", explicou.

Ela acrescenta: "Talvez elas não estejam gastando dinheiro, mas, na realidade, também não estão enfrentando o problema central, que é: por que recorremos a essas páginas para fazer isso?"

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Talvez essa seja justamente a pergunta que precisamos responder antes de qualquer outra. Afinal, tudo indica que nos esquecemos de como encontrar a felicidade de verdade.

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