A nova adaptação de “Pinóquio” (2026) que chega aos cinemas nesta quinta-feira (16), distribuída no Brasil pela Paris Filmes, está cercada de curiosidade, mas também de controvérsias. Divulgado como mais uma releitura do clássico criado por Carlo Collodi, o longa surpreende ao seguir um caminho completamente diferente da versão popularizada por Walt Disney em 1940 e até mesmo da releitura recente na Netflix de Guillermo del Toro. O resultado? Um filme que encanta em alguns aspectos, mas que pode frustrar quem espera a história tradicional.
Mas aqui vai o ponto central desta análise: este novo filme não é exatamente o boneco de madeira que o público ocidental conhece. E talvez seja justamente aí que mora o problema. O redator do Purepeople, que está escrevendo esta resenha crítica, assistiu com exclusividade e vem te contar tudo o que achou nesta análise sincera.
Baseado na versão russa conhecida como Buratino, inspirada na obra de Aleksey Tolstoy (1936), o longa dirigido por Igor Voloshin propõe uma abordagem completamente diferente. Ainda assim, essa mudança não é comunicada com clareza, o que pode gerar frustração. Como já acontece no título em inglês, “The Golden Key: A New Pinocchio Story”, a proposta fica mais honesta e direta - algo que, na minha opinião, teria evitado boa parte das críticas.
A seguir, uma análise direta e sem rodeios dos principais pontos do filme.
Apesar de ser visualmente bonito, o filme escorrega na integração entre live action e efeitos digitais. O uso de CGI (Computer-Generated Imagery), tecnologia que permite criar cenários e personagens em 3D, acaba soando artificial em diversos momentos.
O próprio Pinóquio, com voz emprestada de Vitaliya Kornienko, causa estranheza. Sua aparência remete ao conceito de “Brain rot”, associado à fadiga mental causada por conteúdos digitais repetitivos. Em especial, há uma semelhança curiosa com o meme “Tung Tung Tung Sahur”, que viralizou no TikTok a partir de um personagem cilíndrico cantando de forma repetitiva. O resultado é um visual que tira o espectador da imersão em vez de encantar.
Mesmo para quem gosta de musicais, este pode ser um ponto difícil de defender. Em menos de 10 minutos de filme, Geppetto, vivido por Alexander Wiktorowitsch Jazenko, já está cantando sobre sua esposa Maria e o sonho do casal de ter um filho.
A sequência é longa, excessivamente descritiva e pouco conectada ao restante da narrativa. Falta construção emocional e sobra exposição direta, o que torna o início confuso e até desconexo.
Aqui está um dos pontos mais polêmicos. Não há Fada Azul. Nem Grilo Falante. Elementos clássicos são substituídos por soluções inusitadas, como um possível “brilho mágico” ou até uma "dona tartaruga", interpretada pela atriz Swetlana Wladimirowna Nemoljajewa.
No lugar do grilo, surgem três baratas falantes: Alejandro, Toni e Giovani (vivido por Vanya Dmitrienko), que também atua como narrador da história. A inserção de personagens do clássico Buratino também causa estranhamento em um primeiro momento. Entre eles, está a trupe do teatro de Karabas (interpretado por Fedor Bondarchuk), formada por Artemon (Mark Eydelshteyn), Pierrot (Stepan Belozyorov), Arlequim (Ruzil Minekaev) e Malvina (Anastasiya Talyzina).
E tem mais: Pinóquio não mente nessa versão. Ou seja, seu nariz não cresce. Para quem cresceu com essa referência, a mudança pesa - e muito.
A proposta de mostrar a trajetória e ascensão de Pinóquio até tem boas ideias. O filme mistura diferentes técnicas artísticas, referências a redes sociais, cultura de likes e até menções à arte contemporânea, como Banksy.
No entanto, a execução deixa a desejar. Em vários momentos, a estética parece artificial, com uma sensação de que parte do conteúdo foi gerada por inteligência artificial. A crítica à fama está lá, mas perde força pela forma como é apresentada.
Se há um ponto que merece destaque positivo, é o visual. A direção de arte e a indumentária são elegantes, bem trabalhadas e ajudam a criar um universo esteticamente bonito.
Além disso, o desfecho foge do óbvio. Pinóquio não se transforma em um menino de verdade. Ele permanece de madeira por escolha própria, reforçando uma mensagem importante sobre aceitação e diversidade. O personagem entende que não precisa ser humano para ter valor e conquista o amor de Geppetto, que o ama incondicionalmente do jeito que ele é, mesmo sendo de madeira.
Aqui vai uma reflexão importante. Talvez o filme fosse melhor recebido se tivesse sido divulgado claramente como uma nova versão inspirada em Buratino, e não como mais uma adaptação tradicional de Pinóquio.
Na minha opinião, essa escolha de marketing criou uma expectativa equivocada. E isso impacta diretamente na experiência do público. A sensação final é de que o filme tinha potencial, mas acabou “vendido” de forma errada.
No fim das contas, “Pinóquio” (2026) não é necessariamente um filme ruim. Mas é, sem dúvida, um filme que exige do espectador algo essencial: desapego da versão clássica. Para quem não estiver preparado, a decepção pode falar mais alto.