Você já ouviu a frase "Amar é dar o que não se tem"? Se sim - ou se está lendo pela primeira vez agora - deve ter sentido sua força avassaladora. Esteja você apaixonado, em busca de um amor ou com o coração partido, é difícil não sentir nada com ela.
Quem disse isso foi Jacques Lacan, um psicanalista francês, no seu Seminário 4: A relação de objeto (1956-1957). Essa ideia tão curiosa voltou a ser abordada por ela no Seminário 8: A transferência (1960-1961), onde tenta explicar a dinâmica entre o amante e o amado, usando "O Banquete de Platão".
Muitas pessoas já ouviram a frase "amar é dar o que não se tem" com um acréscimo: "Àquele que não é". Muitos especialistas acreditam que é uma extensão posterior ou uma interpretação que se tornou popular, embora faça sentido se pensarmos na teoria de que nós amamos uma imagem idealizada do outro, e não necessariamente a pessoa real.
O amor costuma ser direcionado a um ideal que projetamos em uma outra pessoa. Resumindo: nós não amamos o ser humano real, que possui todos os seus defeitos, mas o que nós acreditamos e imaginamos que a pessoa tem para completar quem somos.
Esse paradoxo é usado por Lacan para explicar que o amor não tem como base a troca de bens ou qualidades, mas a falta desses fatores. Para ele, o amor aparece a partir do reconhecimento de cada pessoa de sua própria incompletude.
Dessa forma, o que se "dá" no amor não é um presente material. O que se dá é a sua própria carência e necessidade. Assim, quando mostramos essa vulnerabilidade, nos tornamos um ser desejante.
Existem variações dessa teoria. No Seminário 12, Lacan traz uma outra visão: “O amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer”. Nessa ideia, um pouco mais incisiva e bruta, o amor estaria sempre surgindo e se desenrolando a partir de uma série de desentendimentos.
Jacques Lacan (1901–1981) foi um psiquiatra e psicanalista francês. Até hoje, ele é considerado uma das figuras mais influentes e controversas da psicanálise (depois de Sigmund Freud). Lacan trouxe o "retorno a Freud" em uma proposta de resgatar o rigor dos textos originais do psicanalista diante do que considerava desvios das escolas anglo-saxônicas.
Além disso, ele também reformulou a teoria psicanalística através da integração de da linguística, da filosofia estruturalista e da matemática. Sua tese mais famosa diz: “O inconsciente está estruturado como uma linguagem”. Isso significa que o insconsciente opera através de leis linguísticas. Alguns exemplos são a metáfora e a metonímia.
Além disso, Lacan trouxe uma proposta de que a experiência humana é organizada em três dimensões: o Imaginário (as imagens e o ego), o Simbólico (a linguagem e a lei) e o Real (aquilo que não pode ser nomeado nem representado). Ao longo de sua vida, ele ministrou seminários semanais em Paris durante quase 30 anos. Além dos analistas, outros filósofos e intelectuais eram atraídos por eles (inclusive os famosos Jean-Paul Sartre e Michel Foucault)
Uma curiosidade é que Lacan foi expulso da Associação Psicanalítica Internacional (IPA) em 1963, principalmente por sua técnica de sessões de duração variável (como interromper a sessão quando surgia algo significativo). Isso o levou a fundar sua própria escola.
Os textos de Lacan são famosos por serem extremamente difíceis e com uma linguagem rebuscada. O que ele queria com esse tipo de escrita era fazer com que o leitor fizesse um esforço semelhante ao do trabalho analítico enquanto lia.