A febre das cartinhas de Pokémon parece estar novamente em alta e deixou de ser um assunto exclusivamente infantil. Nos últimos tempos, até estrelas do futebol como Neymar e Memphis Depay, do Corinthians, passaram a chamar atenção pelo interesse no universo dos colecionáveis. O que começa com um pequeno pacote pode terminar envolvendo peças avaliadas em milhares de reais e até caixas antigas com valores próximos dos R$ 200 mil. Mas afinal, por que tantos adultos continuam fascinados por personagens que fizeram parte da infância?
Para entender melhor esse fenômeno, o Purepeople conversou com a psicóloga clínica Daniela Pereira (CRP: 09/014487), que explica como nostalgia, expectativa, prazer da descoberta, pertencimento e reconhecimento podem estar envolvidos nesse tipo de hobby.
Segundo informações da coluna Veja Negócios, em agosto de 2026, Neymar e Memphis Depay entraram em uma brincadeira que mistura coleção, raridade, especulação e audiência. Neymar chegou a encontrar cartas estimadas em R$ 15 mil durante uma transmissão, enquanto Memphis prometeu levar ao amigo uma antiga caixa de Pokémon que pode chegar perto de R$ 200 mil.
Os produtos, porém, pertencem a categorias diferentes. Neymar abriu envelopes modernos vendidos no Brasil por cerca de R$ 15, com cartas aleatórias. Entre as possibilidades está o chamado "god pack", no qual praticamente todas as cartas são versões especiais.
Memphis, por outro lado, mostrou envelopes antigos ainda lacrados e protegidos em caixas de acrílico. Entre eles estavam exemplares da coleção Fossil de primeira edição, lançada em 1999, e EX Dragon, de 2003. Alguns desses pacotes podem valer milhares de reais.
A caixa prometida a Neymar é da coleção Fossil e reúne 36 envelopes. O valor de aproximadamente R$ 200 mil divulgado nas redes está próximo das cotações mais altas do mercado. Em abril, duas caixas da mesma coleção foram arrematadas por valores equivalentes a aproximadamente R$ 159 mil e R$ 165 mil, segundo a publicação.
Para Daniela Pereira, um dos pontos centrais está justamente na expectativa. "A expectativa é uma parte muito importante desse comportamento, porque muitas vezes o prazer não está apenas no objeto que a pessoa vai encontrar, mas na possibilidade de encontrar", explica a psicóloga.
A especialista destaca que existe uma recompensa associada à imprevisibilidade. Ao abrir um pacote, o colecionador pode encontrar uma carta comum ou, em uma situação muito mais rara, uma peça valiosa. Essa possibilidade torna a experiência estimulante, mas não significa automaticamente que exista um comportamento compulsivo ou um problema psicológico.
Com as redes sociais, entretanto, surge uma segunda recompensa. A pessoa deixa de vivenciar a experiência apenas para si e também pode pensar em como o público reagirá à descoberta. "Então entram a audiência, as curtidas, os comentários, os compartilhamentos, o reconhecimento e até as oportunidades comerciais", afirma Daniela.
Assim, uma simples abertura pode reunir dimensões pessoal, financeira e social ao mesmo tempo.
A psicóloga Daniela Pereira também questiona a ideia de que um adulto interessado em brinquedos, personagens ou jogos da infância necessariamente esteja vivendo uma espécie de "infância tardia". Para ela, existe uma relação importante entre esses interesses e as lembranças construídas ao longo da vida. "Para muitos adultos, existe uma conexão muito forte com a memória afetiva da infância", explica a especialista.
"Gostar de alguma coisa que fez parte da infância não significa, necessariamente, que a pessoa esteja "presa" à infância ou que seja imatura", afirma Daniela. Segundo a psicóloga, objetos e personagens podem carregar significados afetivos importantes e continuar relacionados às memórias de uma pessoa mesmo depois da infância.
Por isso, a especialista propõe mudar a pergunta. Em vez de questionar por que um adulto ainda gosta de algo associado à infância, o mais importante seria entender que lugar esse hobby ocupa na vida daquela pessoa.
Se a atividade proporciona prazer, relaxamento, socialização e permanece dentro da rotina e do orçamento, pode ser simplesmente um hobby. A situação muda quando o interesse começa a substituir outras áreas importantes da vida, provoca prejuízos financeiros, conflitos familiares, perda de controle ou passa a ser utilizado como única maneira de lidar com problemas e emoções difíceis.
A relação entre gênero e colecionismo também é mais complexa do que pode parecer. Daniela explica que existem pesquisas sobre diferenças relacionadas aos objetos escolhidos, às motivações e à maneira como as coleções são apresentadas socialmente, mas ressalta que não é possível transformar essas diferenças em regras.
Durante muito tempo, interesses relacionados a competição, tecnologia, esportes, jogos, raridade e investimento foram mais associados aos homens. Isso também pode criar uma espécie de "autorização social" diferente para homens e mulheres demonstrarem determinados hobbies.
As redes sociais, porém, ampliaram as comunidades formadas em torno de interesses específicos. Para Daniela, muitas das motivações podem ser semelhantes entre homens e mulheres, incluindo prazer, pertencimento, memória afetiva, identidade, socialização e satisfação em encontrar algo raro ou significativo.
No caso de uma caixa antiga avaliada em R$ 200 mil, existe ainda um dilema: manter o produto lacrado pode preservar seu valor, enquanto abrir os pacotes pode proporcionar uma experiência capaz de gerar audiência, publicidade e repercussão.
"Quando uma pessoa tem uma caixa extremamente valiosa e decide abri-la diante de milhares ou milhões de pessoas, ela não está tomando apenas uma decisão financeira, existe também uma dimensão emocional e social nessa escolha", explica a psicóloga.
A audiência pode se tornar parte da própria experiência. Uma abertura que gera milhões de visualizações, comentários e repercussão pode incentivar novas experiências semelhantes. Daniela chama atenção para a possibilidade de uma "escalada", em que uma abertura precisa ser mais surpreendente do que a anterior, uma compra precisa ser maior ou uma experiência precisa provocar mais impacto.
Isso, porém, não significa que gastar muito dinheiro com uma coleção seja automaticamente sinal de compulsão. Para a psicóloga, o que merece atenção são sinais como perda de controle, gastos incompatíveis com a realidade financeira, endividamento, ocultação das compras, conflitos familiares e prejuízos profissionais.
No fim, a questão não está simplesmente em quanto alguém gasta com Pokémon. Como resume Daniela, é preciso observar o significado da atividade, o nível de controle mantido pela pessoa e as consequências que o comportamento produz em sua vida.