A Copa do Mundo de 2026 já começou e, mais uma vez, milhões de pessoas ao redor do planeta voltam suas atenções para o futebol.
Desta vez, o torneio acontece em três países-sede — Canadá, Estados Unidos e México — e reúne não apenas os melhores jogadores do mundo, mas também uma legião de torcedores que vivem cada partida como se estivessem dentro de campo.
No Brasil, a expectativa pelo tão sonhado hexa faz com que nomes como Neymar e outros astros da Seleção carreguem uma enorme responsabilidade. Mas por que um simples jogo de futebol consegue provocar tanta alegria, ansiedade, nervosismo e até tristeza? O que acontece no cérebro e no corpo de um torcedor durante uma Copa do Mundo?
Para entender esse fenômeno, o Purepeople conversou com a psicóloga Fernanda Paiva, que explica que a intensidade emocional do Mundial vai muito além do esporte.
Segundo ela, existe um processo chamado 'fusão de identidade', que ajuda a explicar por que uma partida da Copa costuma mexer muito mais com as pessoas do que um campeonato comum.
"Um fenômeno psicológico em que as barreiras entre o 'eu' e o 'coletivo' desaparecem. O cérebro do torcedor pode não entender um jogo de Copa do Mundo como um simples entretenimento, ele interpreta a partida como uma ameaça real a sua própria comunidade, ativando o sistema de 'luta e fuga'", define Fernanda Paiva.
Veja + após o anúncio
É justamente por isso que um gol da Seleção costuma gerar reações tão explosivas. Essa também é uma das razões pelas quais muitos torcedores preferem acompanhar os jogos pela TV aberta em vez do streaming, onde o atraso de 25 segundos, que chamamos de delay, pode ocasionar tensão.
"Uma das amostras mais marcantes foi realizada pela Universidade de Oxford, durante a Copa de 2014, no Brasil. O estudo apontou que os níveis de cortisol (hormônio do estresse) gerados em torcedores de diferentes idades, eram altíssimos durante as partidas em que torciam para a seleção, pois o sentimento de expectativa versus frustração no decorrer dos jogos elevam a tensão no sistema nervoso central."
Na prática, isso significa que o corpo reage ao futebol como se estivesse diante de uma situação de grande importância. O coração acelera, a respiração muda e o cérebro libera substâncias ligadas tanto ao prazer quanto ao estresse.
Entre elas está a dopamina, neurotransmissor associado à recompensa, motivação e sensação de felicidade. O problema é que, durante um jogo decisivo, ela costuma dividir espaço com o cortisol e a adrenalina.
"Esse pico de adrenalina atuando por determinado tempo na corrente sanguínea pode sim, em certos casos ser prejudicial a saúde, principalmente em pessoas com predisposição ou histórico de problemas cardíacos e pressão alta."
Outro aspecto importante é o chamado comportamento de massa. Durante a Copa, milhões de pessoas compartilham as mesmas emoções ao mesmo tempo.
Mas se a vitória gera euforia coletiva, a derrota também pode provocar um forte sentimento de luto. Um dos maiores exemplos para os brasileiros continua sendo o traumático 7 a 1 sofrido contra a Alemanha na Copa do Mundo de 2014. Segundo Fernanda Paiva, a dor causada por um resultado negativo vai além da decepção esportiva.
"A mente processa o evento como uma perda existencial de status social, ativando circuitos biológicos profundos de dor, estresse, e desamparo, por exemplo. Importante ressaltar que essas reações podem variar em cada indivíduo, dependendo do grau de importância que esse vincula ao futebol em questão."
Nesse contexto, os grandes jogadores também assumem um papel simbólico. Eles passam a carregar expectativas, sonhos e sentimentos de milhões de pessoas.
"Durante uma Copa, a seleção e seus jogadores principais viram símbolos da nossa própria identidade enquanto uma nação, da nossa cultura e orgulho perante os demais países na disputa. O ídolo passa então a ser uma extensão do próprio torcedor, onde o desempenho dele, bom o ruim, impacta diretamente nas suas expectativas projetadas sobre ele. Um fardo e tanto aos atletas", finaliza Fernanda Paiva.