Será que é possível ser feliz mesmo quando algo ou alguém faz falta? Para o psicólogo e escritor argentino Gabriel Rolón, a felicidade não precisa significar uma vida completa, sem dores ou ausências.
Ao mesmo tempo, ela pode surgir justamente quando aprendemos a conviver com aquilo que nos falta, sem permitir que essa ausência determine todos os nossos passos.
Em entrevista ao jornal La Nación, Rolón compartilhou uma reflexão sobre a maneira como as pessoas lidam com o tempo e com as próprias escolhas.
“Sempre tive a impressão de que a vida deixa de ter sentido quando alguém começa a procurar a felicidade no passado”, afirmou.
Para o especialista, refugiar-se constantemente em lembranças pode se transformar em uma forma de evitar a responsabilidade de viver bem o presente. A ideia está ligada a um conceito que ele próprio propõe: 'faltacidad', um neologismo que combina falta e felicidade.
A palavra descreve a possibilidade de experimentar momentos felizes mesmo sem eliminar as dores, as feridas e as ausências que fazem parte da existência. Nas palavras do psicólogo, "a felicidade não existe; existe apenas a ‘faltacidad’. Uma felicidade capaz de abarcar todas as deficiências, ausências, dores e feridas”.
A proposta não significa que a tristeza deva ser ignorada ou que seja necessário aceitar situações que fazem mal. Trata-se de reconhecer que a vida não precisa estar perfeitamente resolvida para que seja possível encontrar satisfação.
Essa reflexão encontra um paralelo na história de Fábia (Flávia Alessandra), de 'Quem Ama Cuida'. Depois de anos de relacionamento, ela se separou de Ulisses (Alexandre Borges) ao descobrir que ele escondia o vício em jogos de azar. A revelação abalou a confiança entre os dois e mudou a maneira como ela passou a enxergar o casamento.
A separação também envolveu dinheiro e interesses profissionais. Fábia não dividiu com o ex-marido os valores que ele conseguiu por meio da sociedade na joalheria da qual também fazia parte. Desde então, a personagem demonstra estar decidida a seguir a própria vida, sem dar sinais evidentes de que sente falta da antiga relação.
Diante disso, surge uma pergunta: Fábia realmente amava Ulisses ou o fim do relacionamento revelou que o vínculo já estava desgastado?
Não sentir ou não demonstrar saudade, por si só, não prova que nunca existiu amor. Cada pessoa reage de uma maneira ao fim de uma relação. Em alguns casos, a distância provoca sofrimento; em outros, pode trazer alívio, especialmente quando a convivência era marcada por mentiras, insegurança ou perda de confiança.
Também é possível que sentimentos diferentes coexistam. Alguém pode guardar lembranças de uma relação importante e, ainda assim, entender que não deseja retomá-la. A ausência do parceiro não precisa ser interpretada como um vazio que obrigatoriamente deve ser preenchido.
No caso de Fábia, sua postura pode ser entendida como uma tentativa de recuperar a autonomia depois de descobrir algo que abalou profundamente sua confiança em Ulisses.
Rolón também questiona a ideia de que existe uma 'alma gêmea' capaz de completar todas as nossas faltas. Ao falar sobre relacionamentos, ele recorre à imagem de pessoas que carregam suas próprias perdas e experiências: “São como laranjas que perderam gomos ao longo do caminho. Ninguém jamais nos completará”. Forte, né?
Ao final, Rolón aponta para uma felicidade que não depende de uma vida perfeita. O passado pode continuar fazendo parte da história de alguém, assim como as dores e os medos, sem impedir que novas experiências sejam construídas.
A “faltacidad” ajuda a pensar justamente nisso: seguir em frente não exige deixar de sentir tudo o que passou, mas aprender a viver sem depender de que o passado seja consertado para que o presente tenha valor.