Antes de vestir o smoking, pedir um drinque “batido, não mexido” e se transformar em um dos maiores símbolos do cinema, Sean Connery conheceu uma realidade bem diferente da vida de luxo associada a James Bond. Nascido em Fountainbridge, uma região operária de Edimburgo, na Escócia, o ator começou a trabalhar ainda criança e chegou a entregar leite pelas ruas da cidade!
Anos depois, quando já havia conquistado fama e uma fortuna como 007, tomou uma decisão pouco comum em Hollywood: abriu mão de todo o seu salário por um filme para ajudar jovens escoceses!
Segundo a revista Sight and Sound, do British Film Institute (BFI), ele cresceu em um apartamento superlotado, filho de um pai que trabalhava dirigindo vans e de uma mãe que era faxineira. Quando criança, chegou a dormir na gaveta inferior de um armário, segundo relatos sobre sua infância.
Aos 8 anos, já entregava leite pela manhã e trabalhava em uma padaria à noite. Ele deixou a escola aos 13 anos e passou por uma série de empregos antes de encontrar seu caminho no cinema.
Antes da fama, além de entregador de leite, ele foi pedreiro, operador de cimento, motorista de caminhão, dobrador de aço e até polidor de caixões. Também serviu na Marinha Real britânica, mas deixou a corporação por problemas de saúde. Mais tarde, começou a praticar musculação, trabalhou como salva-vidas e posou como modelo para estudantes da Edinburgh College of Art.
Um registro descoberto décadas depois ajuda a dimensionar o abismo entre aquele garoto e o astro que ele se tornaria. Documentos de emprego revelados pelo The Guardian mostraram que Thomas Connery, aos 14 anos, recebia 21 xelins por semana - pouco mais de £1 - como trabalhador de uma cooperativa de laticínios de Edimburgo. Ele foi promovido posteriormente a funções ligadas ao transporte de leite antes de deixar o trabalho para seguir carreira na Marinha.
A virada veio aos poucos. Em 1953, Connery conseguiu uma vaga no elenco de South Pacific, em Londres, depois de participar do concurso Mr. Universe. O trabalho no teatro abriu caminho para pequenos papéis no cinema e na televisão. Um deles chamou a atenção de Walt Disney, que o escalou para Darby O'Gill and the Little People, de 1959.
Poucos anos depois, os produtores Harry Saltzman e Albert “Cubby” Broccoli escolheriam aquele ator escocês ainda pouco conhecido para interpretar um personagem que mudaria sua vida. Em 1962, Connery apareceu pela primeira vez como James Bond em Dr. No. O sucesso foi imediato, e ele se tornou o primeiro grande rosto de 007 no cinema. Dali em diante, foi história! Uma sequência de filmes icônicos até o artista chegar naquele ponto de "quero ser mais".
Para convencer Connery a voltar a ser Bond, os produtores precisaram fazer um acordo muito mais vantajoso do que os anteriores. O Los Angeles Times informou que o ator recebeu uma oferta de US$ 1,25 milhão, valor que hoje corresponderia a cerca de US$ 10,28 milhões, ou aproximadamente R$ 52,5 milhões, considerando a inflação americana e a cotação atual. O acordo também previa uma porcentagem da bilheteria do filme.
Connery, porém, não ficou com o salário.
De acordo com o site oficial do ator, ele destinou todo o seu salário de Diamonds Are Forever - descrito como “bem mais de US$ 1 milhão”, ou seja, mais de aproximadamente R$ 41 milhões em valores atuais - ao Scottish International Educational Trust, instituição que ajudou a criar. O Los Angeles Times também registra que Connery doou o salário do filme à organização, criada para oferecer bolsas de estudo a jovens escoceses em situação de vulnerabilidade.
O dinheiro foi direcionado para uma causa que tinha relação direta com a própria história de Connery: ampliar oportunidades para jovens escoceses. O Scottish International Educational Trust foi criado com o objetivo de apoiar estudantes e talentos que poderiam não ter acesso às mesmas oportunidades por limitações financeiras.
A iniciativa também revela uma preocupação que acompanhou Connery durante a vida. No site oficial, o ator afirma que três áreas eram especialmente importantes para ele: educação, cultura e Escócia. A organização que recebeu seu salário de Bond se encaixava justamente nessa interseção - usar a própria fortuna para ampliar as possibilidades de quem, como ele, poderia ter talento, mas não necessariamente os meios para desenvolver esse potencial.
Anos depois, o piloto Jackie Stewart contou ao The Guardian que conheceu Connery em 1971, justamente quando o ator estava ajudando a estruturar a instituição voltada aos jovens escoceses.
Segundo Stewart, Connery entendia que a Escócia tinha talento, mas não oferecia as mesmas oportunidades em determinadas áreas, especialmente nas artes. A experiência pessoal parecia pesar nessa visão: ele próprio havia deixado uma infância humilde para construir uma carreira internacional.