Só se fala nisso! O Madame Satã, um dos espaços mais emblemáticos da vida noturna paulistana, voltou aos holofotes após aparecer em uma investigação envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Mas, por trás do endereço que ganhou novamente os noticiários, existe uma história muito mais antiga do que as festas privadas e os nomes conhecidos que passaram por suas dependências.
Foi justamente nesse casarão que aconteceu uma festa de Halloween organizada por Vorcaro, em outubro de 2023. Segundo informações publicadas nesta sexta-feira (11) em reportagem de João Batista Jr., na Revista Piauí, mensagens recuperadas pela Polícia Federal e divulgadas posteriormente indicavam detalhes sobre o evento, que teria reunido cerca de 120 mulheres e 20 homens, além de contar com restrições ao uso de celulares.
O episódio colocou novamente o famoso endereço no centro das atenções. No entanto, muito antes dessa repercussão, o espaço localizado na Rua Conselheiro Ramalho, 873, na Bela Vista, região do Bixiga, em São Paulo, já havia construído uma trajetória marcante, diretamente ligada à música, à contracultura e à cena underground brasileira. Confira 8 curiosidades:
O prédio que hoje abriga o Madame Satã tem uma história anterior à própria casa noturna. O casarão foi construído em 1936 e, décadas mais tarde, passou a ganhar uma nova função. Em 1983, nasceu ali o Restaurante Cultural Madame Satã, inaugurado com atividades voltadas à arte e à cultura.
No ano seguinte à inauguração, José Claudio Mendes, promoter e agitador cultural, entrou para a sociedade. A partir dessa fase, o espaço passou a reunir pista de dança e palco, além de receber performances de artistas plásticos, atores e dançarinos. Música, teatro e dança passaram a dividir espaço com manifestações da cena alternativa que se desenvolvia em São Paulo naquele período.
A programação do local aproximou diferentes grupos e estilos ligados à cultura underground. O Madame Satã passou a receber frequentadores e manifestações associadas ao rock, punk, new wave e dark, entre outras vertentes. Foi nesse contexto que o endereço da Bela Vista se consolidou como um ponto de encontro da cena alternativa paulistana.
Esse número chama atenção na história da casa: segundo o próprio estabelecimento, e repercutidas pelo portal BNews, 79 bandas passaram pelo palco entre 1984 e 1986. Entre os grupos e artistas citados estão RPM, Ira!, Ultraje a Rigor, Capital Inicial, Legião Urbana, Plebe Rude, Inocentes e Engenheiros do Havaí, nomes que posteriormente alcançaram reconhecimento nacional.
A importância do Madame Satã não ficou restrita à programação musical. Segundo a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, a FAU-USP, o local integra a memória da comunidade LGBT+ da cidade e teve importância para diferentes subculturas marginalizadas.
A trajetória do clube se desenvolveu nos anos 1980, década marcada, segundo as informações fornecidas, pela retomada de espaços de expressão artística e comportamental após duas décadas de ditadura militar.
O nome Madame Satã é uma referência a João Francisco dos Santos, figura histórica da cultura urbana brasileira. Artista e personagem ligado à noite carioca, ele inspirou a identidade adotada pelo estabelecimento paulistano.
A história da casa não foi marcada por uma única identidade. Ao longo de sua trajetória, o espaço também funcionou sob os nomes The The e Morcegóvia. Em 2009, as atividades foram encerradas. Depois de reformas no imóvel, incluindo intervenções no telhado e na parte elétrica, o endereço voltou à noite paulistana em 2012, quando passou a operar sob o nome Madame.
Ainda segundo informações publicadas em reportagem de João Batista Jr., na Revista Piauí, Daniel Vorcaro organizou no local uma festa de Halloween em 31 de outubro de 2023. As mensagens indicavam uma presença planejada de aproximadamente 120 mulheres e 20 homens.
De acordo com o material divulgado, o então ministro das Comunicações Fábio Faria, marido da apresentadora Patrícia Abravanel, teria participado do evento e ficado responsável por convidar alguns homens. Já o promoter Tiago Polo teria atuado na contratação de mulheres por meio de agências e contatos do setor.
Os registros também mencionavam preocupação com a circulação de imagens, com uma orientação para que os celulares fossem deixados na entrada. As informações divulgadas sobre a organização da festa, no entanto, não comprovam, por si só, qualquer irregularidade criminal por parte dos convidados ou qualquer relação sexual entre os participantes.