Aguinaldo Silva já entregou à Globo os capítulos finais da novela "Três Graças", cujo último capítulo vai ao ar dia 15 de maio com promessa de desfecho surpreendente envolvendo Ferette (Murilo Benício). Dono de clássicos da teledramaturgia como "Tieta" (1989) e "Senhora do Destino" (2003), o novelista sempre atento às críticas do público na web passou pelas redações de jornais, onde exerceu o cargo de repórter policial, antes de abraçar os dramas e romances da ficção.
Mas o que levou Aguinaldo a deixar de lado a cobertura das tragédias urbanas para o mundo das novelas? Uma foto impactante foi fundamental na decisão do futuro novelista, "pai" de personagens como Nazaré (Renata Sorrah) e Arminda (Grazi Massafera). "Não posso continuar assim, não aguento mais", sacramentou o então repórter na época, 1978.
A foto em questão? Dois meninos com idades entre 11 e 13 anos surgiram crivados de balas e jogados em uma montanha de lixo, relatou a revista "Veja" de 11 julho de 1990. "Eu estava furioso com a tranquilidade com a qual se aceitavam crimes desse tipo, que muitas vezes mereciam no jornal poucos centímetros de espaço, para não incomodar os leitores", explicou uns anos antes de se envolver em polêmica com Dias Gomes - eles assinaram juntos "Roque Santeiro" (1985-1986).
Na época, Aguinaldo morava na Barra da Tijuca e há três anos não ia ao centro da capital fluminense. Àquela altura, o autor já havia levado para a tela sua experiência de repórter e de vida em produções como "Plantão de Polícia" (1979-1981) e "Bandidos da Falange" (1983). "Os bandidos de vinte anos atrás, se comparados aos de hoje, eram de um romantismo comovedor. O Rio era uma festa, e hoje a festa acabou", disparou o autor, que chegou ao estado pela primeira vez aos 18 anos.
A festa não só acabou, na visão de Aguinaldo, como lhe deixou com medo. "O Rio me dá medo. Eu estou com medo, sim senhor. E não se trata apenas de um sentimento existencial - eu estou realmente apavorado. Minha única coragem é admitir esse medo clara e publicamente. O Rio não é mais uma cidade, é uma praça de guerra, com batalhas cotidianas que deixam rastros de morte e de sangue. Voltando para a casa, você não é apenas um cidadão que abre a porta de sua residência após um dia de trabalho ou de lazer. Você é um sobrevivente que teve muita sorte", definiu.
O autor de "Três Graças" se definiu como pessimista e indicou um futuro "ainda mais carregado de tragédia". "Não estou vendo nenhuma luz no fim do túnel e esse túnel está cheio de perigos e armadilhas", acrescentou. "Saio desse bairro (Barra) o menos possível e, quanto tenho de ir até a Globo para entregar meu trabalho ou discutir sobre uma nova produção, deixo o carro na garagem e vou de táxi", revelou,
"Não é que seja mais seguro, mas posso fechar os olhos durante a travessia do túnel, na tentativa de não ver o que acontece em volta de mim", prosseguiu, negando que havia sido assaltado ou ameaçado até então. Em novembro de 2016, um cordão de ouro acabaria roubado por dez pessoas durante assalto.