No debate entre Lula e Flávio Bolsonaro para as eleições presidenciais, realizado na TV Globo nesta sexta-feira (23), uma cena polêmica veio à tona e indignou muitos internautas: o senador ironizou o fato de o petista ter nove dedos. A situação ficou tão tensa que o próprio Flávio se desculpou ao vivo, mas as críticas tomaram conta da web, com acusações de capacitismo e mais. Uma das pessoas que se pronunciou foi Amaury Lorenzo.
O ator, que interpreta Lucas em "Por Você", fez um desabafo emocionante nas redes sociais na manhã deste sábado (24). Amaury revelou que tem deficiência auditiva bilateral progressiva e afirmou que, com o avanço da condição, poderá perder completamente a audição e não conseguir mais exercer a profissão que ama. Ele também detonou a postura de Flávio durante o debate e declarou apoio à candidatura de Lula.
Em um vídeo publicado nas redes sociais, Amaury começou se apresentando e explicando como a perda auditiva afeta sua rotina e seu trabalho. O ator contou que usa dois tipos de aparelhos auditivos para conseguir ouvir e desempenhar suas funções profissionais.
“Eu sou surdo, pessoa com deficiência bilateral progressiva, faço uso de aparelhos auditivos, atrás da orelha como esse e intracanal, dentro do ouvido. Sem esses aparelhos eu não consigo trabalhar”, afirmou.
Na sequência, o artista fez uma revelação delicada sobre o futuro de sua carreira. “Daqui a um tempo eu vou ser surdo completamente e não vou poder seguir fazendo o que eu mais amo, que é estar atuando no palco, no teatro, no cinema, como faço ao longo de 30 anos”, declarou.
Amaury explicou que a referência de Flávio Bolsonaro aos “nove dedos” de Lula o atingiu justamente por ter relação direta com sua experiência como pessoa com deficiência. “E isso me pegou, gente. Isso me pegou muito porque é a minha rotina de pessoa com deficiência”, desabafou o ator.
A fala de Flávio ocorreu no primeiro bloco do confronto na Globo, quando ele respondeu a Lula sobre a proposta de tarifa zero no transporte público aos fins de semana. Ao criticar a política defendida pelo presidente, o senador afirmou: “Não adianta nada, o salário mínimo ser R$ 1.621, se você dá com uma mão e tira com os nove dedos”. A frase provocou risos entre apoiadores do candidato na plateia.
A provocação, porém, não ficou sem resposta. Lula perdeu o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente de trabalho, em 1964, quando tinha 17 anos e trabalhava como torneiro mecânico. Ao reagir, o presidente lembrou sua trajetória profissional e exigiu uma retratação do adversário.
“Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos, fui eu”, afirmou Lula, que também criticou as condições de trabalho que expõem milhares de trabalhadores a acidentes. Diante da cobrança, Flávio respondeu: “Se eu te ofendi, eu te peço desculpas, não queria te ofender”.
Para Amaury, no entanto, o pedido de desculpas não apaga a gravidade do episódio. O ator questionou o que uma declaração desse tipo representa quando parte de alguém que disputa a Presidência da República e tem a possibilidade de ocupar o principal cargo político do país. “Se ele fala isso ao vivo para um senhor de 80 anos, na televisão nacional, é esse o projeto que ele vai aplicar”, afirmou, em referência à fala de Flávio sobre Lula.
O ator também ampliou suas críticas ao associar a declaração do senador a uma postura que, na avaliação dele, desrespeita pessoas com deficiência. Em seu desabafo, Amaury mencionou ainda o que classificou como uma proposta de aplicar choques elétricos em pessoas com algum nível de autismo.
O artista afirmou que o assunto o afeta também por sua trajetória profissional: segundo ele, foi professor durante 20 anos e trabalhou com crianças autistas. “Isso me dói ainda mais”, declarou, ao explicar por que decidiu se manifestar publicamente.
Ao longo do vídeo, Amaury deixou explícito que sua manifestação não se limitava à indignação com a fala de Flávio Bolsonaro. O ator declarou apoio a Lula e convocou eleitores que ainda não decidiram seu voto, além daqueles que pretendem votar nulo, a considerar a candidatura do atual presidente.
“Eu voto Lula”, afirmou. Em seguida, o artista listou temas que considera fundamentais para o futuro do país, como democracia, direitos humanos, direitos da população LGBTQIA+, direitos das mulheres e dos povos indígenas, preservação ambiental e valorização do trabalho.
Amaury também direcionou críticas ao senador e ao grupo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
“Amanhã eu tenho muitas cenas para gravar na novela que eu amo, mas eu não vou dormir hoje”, disse, antes de fazer um apelo em defesa da democracia brasileira e reafirmar seu apoio a Lula.