Após uma semana difícil, nada melhor que ligar a Netflix. Mas, muitas vezes, começamos uma série e a única razão pela qual não a terminamos é simplesmente por termos dado uma chance a ela no momento errado. “Taboo” é um bom exemplo disso. A série de época da Netflix, criada pelo mesmo Steven Knight que idealizou "Peaky Blinders", produção que conquistou o Brasil e ditou tendência de looks.
No entanto, foi somente no mês passado, quando chegou ao catálogo do streaming, que encontrou uma nova onda de espectadores, que parecem valorizá-la mais agora do que em 2017.
Em apenas oito episódios, a trama acompanha uma história de época viciante que se desenvolve lentamente, construindo um mundo sombrio, áspero e pouco complacente. Para curtir ainda mais a produção, o espectador precisa aceitar desacelerar o ritmo e se deixar levar passo a passo, sem pressa.
Apesar das séries compartilharem o mesmo criador, "Taboo" e "Peaky Blinders" são bem diferentes. De modo geral, a maior distância entre "Taboo" e "Peaky Blinders" está na trama e ritmo.
Enquanto "Taboo" aposta em uma história mais lenta, "Peaky Blinders", centrada na figura do frio e calculista Thomas Shelby, foca mais na ação, crime organizado e ascensão ao poder na Inglaterra pós-Primeira Guerra.
Ambientada na Londres de 1814, "Taboo" se situa em um momento histórico marcado por tensões coloniais, lutas comerciais e uma cidade que cheirava a fumaça, lama e corrupção. Nesse contexto, James Delaney, um homem que todos consideravam morto após ter desaparecido por uma década, volta para casa.
Seu retorno, coincidindo com o funeral de seu pai, desencadeia uma série de conflitos políticos, econômicos e pessoais que vão muito além do drama familiar. Assim, o que começa como um retorno incômodo logo se transforma em um jogo de poder contra algumas das instituições mais influentes do momento.
Um dos grandes motores da série é seu protagonista. Tom Hardy, protagonista de Venom (2018), entra em um daqueles personagens que falam até mesmo com o que calam. James Delaney é hermético, imprevisível e fisicamente intimidador. Ao seu redor, um elenco de primeira linha (com Oona Chaplin, Stephen Graham, Jessie Buckley ou Jonathan Pryce) ajuda a sustentar uma história coral onde as lealdades mudam e ninguém parece totalmente confiável.
Mas, embora adoremos as dicções da época pela forma como são recriadas esteticamente, o seu objetivo é oferecer um olhar crítico sobre o colonialismo europeu, a exploração dos povos indígenas e a violência estrutural sobre a qual muitos impérios foram construídos. A série não procura ser agradável, mas sim incomodar e obrigar o espectador a confrontar-se com personagens moralmente ambíguas e situações que não oferecem saídas acertadas.
Talvez seja por isso que funciona especialmente bem agora. Com o passar do tempo e sem a pressão ou o barulho do lançamento, “Taboo” mostra-se como uma ficção que ganha quando vista com calma e sem hype.
Não é uma série leve para ver de fundo ou devorar automaticamente, mas uma proposta singular dentro do catálogo da Netflix, ideal para quem procura uma história de época diferente, sombria e absorvente.
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