Quando Bebeto correu em direção à linha lateral do Cotton Bowl, em Dallas, e começou a balançar os braços como quem ninava um bebê, o mundo viu apenas um dos momentos mais emocionantes da história das Copas do Mundo.
O gesto, reproduzido milhares de vezes ao longo das últimas décadas, nasceu da alegria pela chegada de Matheus, terceiro filho do atacante. Mas o que poucos sabem é que, semanas antes daquela comemoração eternizada diante da Holanda, a família do jogador havia vivido momentos de medo, tensão e violência no Rio de Janeiro.
Por trás de uma das imagens mais famosas do futebol mundial existe uma história que envolve um assalto à mão armada, uma gravidez de risco emocional e o receio de que uma tragédia pudesse abalar o principal nome da Seleção Brasileira às vésperas do Mundial de 1994!
Era 12 de junho de 1994, Dia dos Namorados. Faltavam poucos dias para a estreia do Brasil na Copa dos Estados Unidos quando Denise Gama de Oliveira, esposa de Bebeto, saiu para buscar os dois filhos mais velhos na casa da mãe, no Rio de Janeiro.
Grávida de aproximadamente 34 semanas de Matheus, ela estava acompanhada por Wilson, irmão do jogador, e pela esposa dele.
Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 14 de junho daquele ano, o grupo foi rendido em um semáforo por três homens armados com metralhadora e revólveres. Os criminosos levaram o carro recém-comprado, documentos, telefone celular, cartões bancários, talão de cheques e um relógio Rolex pertencente a Denise.
Vinte anos depois, em entrevista ao UOL, Denise revelou detalhes dramáticos do episódio. Segundo ela, os criminosos a retiraram do carro e a jogaram no chão mesmo com a gravidez já bastante avançada.BAlém do medo pelo bebê, havia outra preocupação: evitar que Bebeto recebesse informações desencontradas nos Estados Unidos.
© Getty Images
O irmão de Bebeto também correu perigo. À Folha, Wilson afirmou que os assaltantes estavam extremamente nervosos e chegaram a cogitar levá-lo como refém. "Os assaltantes estavam muito 'agitados' e queriam levá-lo como refém. Só quando Denise deu o relógio, eles desistiram de me levar", declarou.
Após o assalto, Denise ficou abalada emocionalmente. Segundo a Folha, ela seguiu para a casa da mãe e contou com o apoio de Mônica Santoro, então esposa de Romário, que a buscou acompanhada por seguranças.
Na época, não existiam as facilidades de comunicação atuais. Telefones celulares eram raros e a internet ainda estava longe de fazer parte da rotina dos brasileiros.
Foi justamente Mônica quem ajudou Denise a localizar Bebeto na concentração da Seleção. A esposa de Romário forneceu o contato de um segurança da delegação brasileira, permitindo que o atacante fosse avisado sobre o que havia acontecido.
O assalto não foi o único episódio difícil enfrentado por Denise naquele período.
Pouco antes da Copa, Bebeto havia vivido uma das maiores frustrações da carreira na Espanha. Defendendo o Deportivo La Coruña, viu o clube perder o título espanhol na última rodada após um pênalti desperdiçado contra o Valencia. O atacante acabou apontado por parte da imprensa espanhola como um dos responsáveis pelo fracasso.
Somados, os acontecimentos transformaram os últimos meses da gestação em um período particularmente conturbado. Em entrevista ao UOL, Denise associou todo esse contexto ao comportamento agitado de Matheus durante a infância."O Matheus foi uma criança hiper agitada. Tudo se refletiu no menino", afirmou. O bebê nasceu em 7 de julho de 1994, cerca de três semanas antes da data prevista.
Dois dias após o nascimento de Matheus, o Brasil enfrentou a Holanda pelas quartas de final da Copa do Mundo. A partida é considerada até hoje uma das melhores da história dos Mundiais!
Romário abriu o placar. Bebeto ampliou. Os holandeses reagiram e empataram em 2 a 2. Quando a prorrogação parecia inevitável, Branco acertou uma cobrança de falta histórica e decretou a vitória brasileira por 3 a 2. Mas foi o segundo gol do Brasil que acabou eternizado!
Antes da partida, Denise havia conversado com o marido, repetindo um ritual que o casal manteve durante toda a competição. Naquele telefonema, Bebeto prometeu que faria um gol e dedicaria o momento ao filho recém-nascido. A promessa foi cumprida! Após balançar as redes, o atacante correu para comemorar ao lado de Romário e Mazinho. Juntos, os três simularam o gesto de embalar um bebê nos braços.
Nascia ali uma das imagens mais icônicas da história do esporte. "Foi em pleno Mundial, emoção à flor da pele. Marcou não só o jogador. Na Espanha, em férias, e em todos os lugares as pessoas queriam saber do filho. Vi jogador de outro país repetir a comemoração", relembrou Denise ao veículo.
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