Quem viveu os anos 2000 provavelmente vai reconhecer na hora. A sapatilha transparente da Melissa, modelo Zig Zag, lançada em parceria com os irmãos Fernando Campana e Humberto Campana em 2004, marcou época e virou febre entre adolescentes e jovens adultas. Alguns anos depois, outro modelo dominou vitrines e corredores de escola: a clássica sapatilha preta com laço na ponta, que remetia diretamente ao estilo patricinha da personagem Blair Waldorf, da série "Gossip Girl".
Havia versões para todos os gostos. Cores variadas, acabamentos diferentes e um ponto em comum: conforto aliado a um toque de estilo. Mas o sucesso estrondoso acabou cobrando seu preço. Possivelmente, o excesso de popularidade transformou o item em alvo de críticas e, com o tempo, surgiu um consenso nada gentil: o calçado passou a ser considerado "cringe", gíria popularizada pela Geração Z para definir algo que provoca vergonha alheia ou constrangimento.
Hoje, porém, a história começa a dar uma reviravolta curiosa.
Apesar de parecer um item moderno, o sapato sem salto tem raízes bem antigas. Em entrevista à revista Elle, a especialista Valeska Nakad, coordenadora do curso de Design de Moda da Faculdade Belas Artes, em São Paulo, lembra que o conceito já existia há séculos. "Maria Antonieta usava sapatos baixos, por exemplo", explica.
Mas, ainda de acordo com a revista, a sapatilha como conhecemos hoje ganhou forma graças à designer Rose Repetto, de origem italiana e radicada na França. Segundo relatos históricos, ela criou um modelo rasteiro e extremamente maleável para atender a uma necessidade muito especial: seu filho, o bailarino Roland Petit, precisava de um sapato confortável para os ensaios. A solução acabou ultrapassando o universo do balé e entrou definitivamente para a história da moda.
Se durante um tempo a sapatilha foi considerada ultrapassada, as semanas de moda provaram que o jogo mudou. De acordo com informações da revista Marie Claire, o novo modelo que domina o radar fashion é o chamado "high-vamp flat", considerado um dos calçados mais importantes de 2026.
A proposta mantém a essência da sapatilha tradicional, mas com uma diferença importante: a parte superior do sapato sobe mais sobre o peito do pé, criando um visual mais elegante e moderno. O resultado é um modelo que lembra uma luva nos pés.
Durante a Semana de Moda Primavera 2026, várias marcas apostaram na tendência. A Toteme, por exemplo, combinou as sapatilhas de cobertura total com blazer preto, calça de cetim creme e camisa branca. A Akris seguiu uma linha minimalista ao apresentar modelos em tons neutros de marfim, enquanto a Jil Sander ousou com uma versão prateada, mais chamativa.
A tendência não ficou restrita às passarelas. Celebridades também já começaram a incorporar o novo estilo ao dia a dia. Durante a Semana de Moda de Paris, a modelo Gigi Hadid apareceu usando um par da marca Mansur Gavriel antes de desfilar para a Miu Miu. O look combinava jaqueta bomber ampla com calça de couro, criando um visual moderno e despretensioso.
Outra supermodelo reforçou a tendência. Kendall Jenner no segundo dia da Milão Fashion Week apostou em uma versão de sapatilha, com silhueta amendoada e acabamento brilhante. No melhor estilo "quiet luxury", ela combinou o sapato com sueter azul marinho, calça branca básica, óculos escuros e um casaco trench coat bege na mão.