Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações do governo de Jair Bolsonaro e genro do apresentador e empresário Silvio Santos, aparece no centro de uma extensa reportagem da Revista Piauí sobre sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Segundo a publicação, a aproximação entre os dois começou em 2023 e rapidamente teria evoluído para negócios milionários, viagens internacionais e articulações com autoridades e empresários.
Um dos episódios que mais chama atenção envolve um projeto de energia eólica pertencente à família de Fábio Faria. De acordo com a Piauí, em fevereiro de 2024, apenas quatro meses depois de conhecer Vorcaro, o ex-ministro vendeu ao banqueiro um projeto de energia eólica de 240 MW por R$ 67,5 milhões. A revista afirma que especialistas consultados consideravam o empreendimento, ainda em estágio inicial, muito abaixo desse valor.
A forma de pagamento chamou ainda mais atenção. Conforme a reportagem, em vez de entregar todo o dinheiro diretamente a Fábio Faria, Daniel Vorcaro teria comprado um apartamento de aproximadamente 800 m² no Jardim América, em São Paulo, avaliado em R$ 50 milhões, e repassado o imóvel ao ex-ministro como parte da negociação.
Faria, porém, não chegou a morar no apartamento. Segundo a Piauí, ele afirmou que sua mulher, a apresentadora Patricia Abravanel, não pretendia deixar o condomínio de casas onde a família vivia. O imóvel teria sido vendido poucas semanas depois para João Camargo, fundador do Esfera Brasil, por R$ 54 milhões. Dessa maneira, Faria teria obtido uma diferença de R$ 4 milhões, enquanto os outros R$ 17,5 milhões restantes da negociação foram pagos diretamente a ele.
A reportagem destaca ainda que parte do valor do projeto eólico ficou com o pai e o tio de Fábio, Robinson Faria e Ricardo Faria, apontados como herdeiros originais do terreno e primeiros idealizadores do empreendimento.
Segundo a Revista Piauí, a relação entre Faria e Vorcaro não teria ficado restrita à transação envolvendo o projeto de energia. Mensagens obtidas pela reportagem mostram o ex-ministro tentando aproximar o banqueiro de autoridades de Brasília.
Em conversas atribuídas aos dois, Faria menciona encontros com nomes como Dias Toffoli, Rodrigo Pacheco, Davi Alcolumbre e Arthur Lira. A publicação também relata viagens internacionais nas quais Faria teria participado de comitivas organizadas ou financiadas por Vorcaro.
Entre os episódios citados está uma viagem a Nova York, em maio de 2024. Faria teria viajado em um jato ligado ao banqueiro e ficado hospedado em hotel de luxo. A Piauí afirma ter localizado uma fatura que registraria um crédito transferido da conta de Vorcaro para a conta do quarto ocupado pelo ex-ministro, no valor de aproximadamente US$ 27,5 mil, referentes a cinco diárias.
Faria teria afirmado anteriormente que pagou pela viagem, mas, segundo a revista, não respondeu quando foi confrontado com os documentos que indicariam o pagamento feito por Vorcaro.
© Reprodução/SBT, @fabiofaria.br
A reportagem relaciona ainda a atuação de Fábio Faria ao SBT News, canal lançado pelo grupo da família Abravanel em dezembro de 2025. Segundo a Piauí, apesar de não ter um cargo definido na empresa, Faria teria participado da busca por patrocinadores e da estruturação da operação.
A publicação afirma que o Banco Master também manteve relação comercial com o SBT por meio do Credcesta, programa associado ao banco, que teria patrocinado o quadro Túnel dos Sonhos, do Programa do Ratinho, com ações de merchandising.
Ao longo da reportagem, a Piauí também descreve Faria como alguém que teria utilizado sua rede de contatos políticos e empresariais para aproximar Vorcaro de diferentes setores. Um político ouvido sob anonimato pela revista chegou a definir o ex-ministro como “o cara mais importante do Vorcaro”.
A Revista Piauí afirma que o nome de Fábio Faria passou a aparecer em diferentes frentes de investigação relacionadas às relações de Daniel Vorcaro. Segundo a publicação, um agente federal ouvido pela reportagem disse que a polícia analisa se o ex-ministro teria auxiliado o banqueiro na corrupção de agentes públicos, ressaltando que, naquele momento, não se tratava de uma investigação formal contra Faria.
A própria reportagem destaca que não havia, até então, indicação de crime atribuída ao ex-ministro, embora investigadores analisassem sua atuação e os contatos mantidos com o banqueiro.
Procurado pela Piauí, Fábio Faria contestou diferentes pontos da reportagem. Sobre o projeto eólico, defendeu o valor da negociação e afirmou que a definição do preço teria sido baseada em estudo da KPMG. A consultoria, entretanto, declarou à revista que participou apenas de “discussões teóricas” sobre o mercado de energia eólica e que não realizou trabalho de assessoria financeira para avaliar o projeto.
A reportagem também registra que Fábio Faria não respondeu a alguns questionamentos apresentados pela revista, inclusive sobre determinados pagamentos e sua presença em viagens mencionadas na investigação. O caso coloca sob os holofotes a trajetória do ex-ministro, que passou pelo governo Bolsonaro, tornou-se genro de Silvio Santos, trabalhou no BTG Pactual e posteriormente assumiu papel de destaque na criação do SBT News, enquanto mantinha uma relação próxima com o banqueiro Daniel Vorcaro.