Carioca, cantor, compositor e homem de muitas mulheres. Calma, estamos falando de Moreira da Silva, que se fosse vivo, completaria 124 anos no próximo dia 1º de abril. Kid Morengueira, como era conhecido, é dito como o criador do samba-de-breque e morreu aos 98 anos em 6 de junho de 2000 por falência múltipla dos órgãos após passar pouco mais de 20 dias na UTI depois de levar um tombo em casa.
Artista que representou a figura do malandro, Moreira da Silva se aposentou após 32 anos como funcionário público estadual. Intérprete de músicas como "Arrasta a Sandália", o artista empilhou quase 130 álbuns gravados, entre LPs, CDs e compactos. O número citado em música só não supera a contagem de mulheres conquistadas pelo sambista: 1.296!
"Nunca bebeu, nunca fumou, sempre compareceu ao trabalho", disse à revista "Veja" de 6 de outubro de 1996 um amigo de quase 40 anos. "O Kid não é nem nunca foi malandro. Vida da malandragem, acrescentou Alexandre Augusto, responsável pela biografia "Moreira da Silva: o Último dos Malandros".
Aos 94 anos na época da reportagem, o cantor morava em um apartamento que dava para o Cemitério do Catumbi, onde era proprietário de um jazigo - o corpo. porém, acabou cremado, atendendo um pedido do próprio artista - e lembrou a época de cafetão. "Ora isso foi nos idos de 1930. Eu era chofer (motorista) de táxi na madrugada. Entrou um passageiro de porte e exigiu: 'Me arruma uma mulher e vamos dar uma volta na Tijuca (bairro da Zona Norte do Rio). Tentei aconselhá-lo a ir para casa. O bicho pegou", iniciou.
"No meio do caminho, encontrei uma cearense bacana. Perguntei se topava. Disse que sim. Mandei entrar. No caminho, a gente só ouvia o ronco do otário. Quando chegamos, tentei acorda-lo. Sou malandro, mas tenho ética. Nada. A cearense olho para mim e eu não pestanejei. Nos amamos ali mesmo. Quando descemos, deixei o vargolino (panaca), cobrei o meu serviço e o da moça", recordou. Segundo a matéria, por seis anos Moreira da Silva viveu da jovem.
Segundo um amigo, o sambista enfrentava "grande dificuldade" e era o responsável pelo sustento da mãe e da irmã em um barraco no morro. "Dirigia ambulância de dia e táxi de noite. Foi um recurso para arranjar um dinheirinho a mais". Àquela altura o menino alfabetizado pelo padrasto aos 8 anos já havia catado papel, vendido doces e entregue marmitas.
Fã confesso do presidente Getúlio Vargas (1882-1954), chorou o dia inteiro o suicídio do político, ganhou um apartamento de uma judia proprietária de um bordel, mas atendeu pedido de sua mulher e se desfez do imóvel quando ela soube da história cerca de 20 anos depois.