Durante décadas, o público acostumou-se a um padrão invisível, mas muito consistente na programação da TV Globo: novelas quase nunca estreiam em dezembro. A regra não está escrita em lugar nenhum, mas é seguida com rigor há mais de meio século, com raríssimas exceções! O motivo não é superstição nem acaso, e sim uma combinação de estratégia de audiência, hábitos do telespectador e riscos comerciais.
A ideia de uma espécie de “maldição” do fim de ano é mais uma metáfora do que um fato. Ainda assim, ela ajuda a traduzir um consenso interno no mercado: dezembro é o pior mês possível para lançar uma nova história diária que depende de hábito, fidelização e continuidade.
Como explica o pesquisador e crítico Nilson Xavier, a novela exige tempo para criar vínculo com o público. O telespectador precisa aprender os nomes dos personagens, entender as tramas, se envolver emocionalmente, um processo que leva semanas. “Novela é hábito. Leva um tempo para que o público assimile a história nova que está começando”, escreveu Xavier para UOL.
Dezembro, porém, é justamente o mês em que os hábitos mais se desorganizam: férias escolares, viagens, festas de fim de ano, confraternizações, Natal, Réveillon e dias mais longos fazem com que as pessoas passem menos tempo em casa no horário tradicional da TV. Isso provoca, historicamente, queda de audiência, especialmente no horário nobre.
Por isso, estrear nesse período significa correr dois riscos ao mesmo tempo:
- Lançar uma novela já em baixa natural de audiência;
- Não dar tempo para o público criar apego antes do recesso e da dispersão típicos do fim do ano.
Outro ponto-chave é que toda novela costuma ter uma queda inicial de audiência, algo esperado enquanto o público se adapta. Se essa queda coincide com o mês de dezembro, ela tende a ser mais profunda e pode afetar a percepção do sucesso da obra, influenciar decisões internas e até a recepção do mercado publicitário.
Por isso, a Globo tradicionalmente prefere:
- Antecipar estreias para antes de dezembro, dando tempo de consolidação;
- Ou adiar lançamentos para janeiro ou fevereiro, quando o público retorna à rotina.
Essa lógica explica por que, apesar de ser a maior produtora de teledramaturgia do país, a emissora praticamente eliminou estreias em dezembro a partir dos anos 1990.
Apesar da regra informal, houve exceções. A Globo estreou algumas novelas em dezembro, especialmente em seus primeiros anos:
- 1965: Padre Tião e Um Rosto de Mulher;
- 1967: Sangue e Areia e O Homem Proibido;
- 1976: Duas Vidas, de Janete Clair;
- 1977: O Astro, também de Janete Clair;
- 1990: Lua Cheia de Amor, considerada a última grande exceção no horário das 19h.
Esses casos são vistos hoje mais como herança de uma época em que a televisão ainda estava se estruturando do que como modelos desejáveis.
O colunista Fábio Costa, do Observatório da TV, reforça que essa lógica não é exclusividade da Globo. O setor como um todo evita o mês porque:
- As pessoas viajam mais;
- Passam mais tempo fora de casa;
- Estão emocionalmente voltadas às festas, não a novas narrativas longas;
- Demoram mais para se conectar a uma trama inédita.
Ele lembra que até quando outras emissoras tentaram estrear novelas em dezembro - como Record, Manchete e SBT - os resultados foram instáveis ou aquém do esperado!
Em 1991, a Manchete lançou "Amazônia" em dezembro: cara, ambiciosa e sem a audiência esperada, a trama precisou ser reformulada e ainda assim não reagiu. No SBT, "As Pupilas do Senhor Reitor" estreou em dezembro de 1994 já sob grande pressão para repetir um sucesso anterior. Em 2019, a Record lançou "Amor Sem Igual" em dezembro e a novela atravessou meses de interrupção e instabilidade na grade.
No fim das contas, o mês é visto como território neutro: bom para encerrar histórias, reprisar conteúdos especiais, exibir retrospectivas e eventos festivos mas não para plantar uma narrativa que precisa de tempo, constância e fidelidade para florescer!