Pioneira da TV brasileira e maior comunicadora do veículo, Hebe Camargo (1929-2012) faria 97 anos neste domingo (8), Dia Internacional da Mulher. Dona de opiniões fortes, que renderam até problemas com o SBT, e proprietária de uma fortuna de milhões, a apresentadora revelou ter se submetido a um aborto aos 18 anos ao engravidar na primeira relação sexual. Sem anestesia. Em uma clínica clandestina. E com uma mulher que não era médica.
"Tive hemorragia por vários dias. Acabei em um hospital. Estava muito doente", afirmou Hebe para a revista "Veja" em setembro de 1997. Na mesma ocasião, Marília Gabriela, Elba Ramalho, Cássia Kis e Cissa Guimarães também estamparam a capa da publicação, que trazia o título "Eu fiz aborto". Assim como Débora Bloch, a apresentadora afirmou não ter se arrependido de sua decisão.
"Minha família nunca soube disso e foi ruim ter de esconder", acrescentou Hebe, morta por complicações de um câncer em 29 de setembro de 2012, dois dias depois de ter assinado um novo contrato com o SBT, onde trabalhou de 1986 a 2010 - chegando nesse período a comandar seu programa nas tardes de domingo, para seu total descontentamento. "Lembro de uma mulher falando alto: 'Não grita! Não grita!'", prosseguiu.
Leia a seguir, na íntegra, o depoimento emocionante que Hebe concedeu à revista.
Eu tinha 18 anos e um corpinho lindo, sobrancelhas grandes, cabelos compridos e escuros. Começava minha carreira de cantora no rádio. Na minha primeira relação sexual fiquei grávida. Não podia contar para ninguém. Meus pais sempre foram muito severos e naquela época era uma perversão ter relação sexual sem se casar.
Contei para uma amiga, uma vizinha. Ela soube de um local onde uma mulher fazia aborto. Ela não era médica. Numa sala pequena, sem anestesia, sem medicamento nenhum, fez a curetagem. A dor era tão intensa que ameacei gritar. Jamais vou esquecer-me daquela voz falando em tom alto e áspero para eu calar a boca.
Voltei para casa e tive hemorragia por vários dias. Acabei em um hospital. Estava muito doente. Minha família nunca soube disso e foi ruim ter de esconder. Para ser mãe a gente tem de desejar ter um filho. Ele tem direito à vida, é verdade. Mas com amor dos pais, com condições para crescer com saúde e boa educação.
Quem vai garantir isso? Um Estado falido, miserável e hipócrita? A Igreja? Nem pensar. Sou católica e até hoje não me arrependo do que fiz. Hoje tenho o Marcelo, a melhor coisa que me aconteceu. Estava casada e preparada para ter um filho. Sinto-me muito feliz.