Já era tarde do dia 05 de novembro de 2021, uma sexta-feira. A minha segunda semana de trabalho no Purepeople estava próxima ao fim, apenas com motivos para comemorar. Empregado novamente, comprei, no dia anterior, ingresso de um festival com a presença de Marília Mendonça.
Uma mensagem recebida no WhatsApp viraria do avesso aquela tarde aparentemente tranquila. “O avião da Marília Mendonça caiu”, dizia o texto enviado por uma colega jornalista.
Aquilo parecia tão absurdo que a primeira reação foi desdenhar. “Imagina. Fake news em plena sexta-feira?”, pensei com meus botões, no auge da inocência de alguém que havia acabado de ingressar no hard news. Até que as primeiras imagens mostram um avião idêntico ao publicado pela própria Marília. Um breve silêncio ensurdecedor antecede uma apuração intensa na nossa redação e em todas as outras do Brasil.
Cerca de duas horas separam a mensagem que recebi e a confirmação de que Marília e mais quatro pessoas morreram naquela tragédia. Chocado, não consegui escrever mais nada por um bom tempo. Meus colegas, já mais experientes, tocaram brilhantemente a cobertura no site.
Enquanto buscava forças para encontrar profissionalismo, assistia atento à atuação de Ana Paula Araújo, que tocava o plantão do “Jornal Nacional”, e do repórter Hérisder Matias.
Videorreporter da InterTV dos Vales na época, afiliada da Globo em Minas Gerais, Hérisder foi um dos primeiros profissionais da imprensa a chegar na cachoeira na serra de Caratinga, antes mesmo da certeza de que se tratava do avião da maior estrela do sertanejo.
Confesso que ainda me culpo por ter deixado a emoção falar mais alto e não ter participado tão ativamente daquela cobertura - mesmo que isso mostre que ainda me resta humanidade em meio ao ritmo cruel do jornalismo factual. Por isso, na semana em que a morte de Marília completou quatro anos, quis ouvir de perto o relato do responsável por transmitir, em rede nacional, as primeiras informações de um ocorrido que enlutou um país.
Hoje editor de texto e repórter na InterTV dos Vales, Hérisder tem 30 anos de carreira e iniciou aos 15 como caboman. Em 2021, o jornalista estava de volta à profissão após um breve período de afastamento. Trabalhou, com sucesso, como vendedor externo, mas o ofício o chamou de volta.
Hérisder atuava exatamente em Caratinga, município localizado no Vale do Rio Doce, como videorrepórter na afiliada da Globo. Costumava trabalhar de casa, mas ia para as ruas quando havia pautas a cobrir. Depois do almoço, uma mensagem no grupo do Corpo de Bombeiros informou a queda de um avião na cidade. Munido de um celular, um tripé e um microfone, ele foi sozinho para o local onde aconteceria a cobertura mais conhecida de sua carreira.
“Primeiramente, a informação era de que seria um avião para 20 pessoas, mas o aeroporto de Caratinga não comporta voos e decolagens para aviões desse porte. De qualquer forma, é uma informação que precisa ser checada. A gente já começou a movimentação para saber se era fato. De carro, me desloquei para o local da queda”, conta Hérisder ao Purepeople.
“Eu sabia que tinha um show da Marília Mendonça, mas não tinha passado pela minha cabeça que pudesse ser o avião dela. Eu vi a foto do avião no local da queda, mas não imaginei que pudesse ser. Mais cedo, eu passei pelo hotel onde a Marília ficaria hospedada, a equipe dela já havia chegado de ônibus na frente. Fui para lá imaginando que seria, infelizmente, mais uma queda de avião”.
Órgãos de segurança, como o Corpo de Bombeiros e a Polícia Militar, confirmaram ao repórter que se tratava do avião que transportava Marília e parte do staff. A assessoria de imprensa da cantora divulgou uma nota onde afirmava que o acidente não causou óbitos e todos os tripulantes haviam sido encaminhados ao hospital.
Hérisder descreve que o comunicado foi recebido com surpresa por ele e pelas primeiras testemunhas do acidente. “Quando eu cheguei no local, várias pessoas me contaram que os passageiros ainda permaneciam dentro da aeronave.”
A conversa com as pessoas que estavam no local, aliás, foi essencial para completar a cobertura. “Fui atrás das pessoas que pareciam mais fieis ao ocorrido e ao que elas tinham visto com relação ao acidente. Elas viram o avião rodando no ar e caindo. Outras pessoas só ouviram o impacto e saíram para ver o que havia acontecido. Uma dessas pessoas disse que viu pelo vidro da frente do avião que os pilotos estavam feridos”, recorda.
Um perito da Polícia Civil comunicou ao jornalista que havia uma morte oficializada e o estado dos demais passageiros “ainda estava sendo avaliado”. A conclusão de que as chances de haver sobreviventes eram baixíssimas veio quando Hérisder observava o trabalho de um médico. “O médico do SAMU estava ao telefone. Então, se houvesse pessoas vivas, ele estaria dentro do avião. Ali, a gente teve a noção de que, realmente, não havia muito a ser feito”, lamentou.
Marília foi a segunda vítima a ser retirada da aeronave. Ela teve o corpo coberto por papel laminado e por um lençol, tudo para evitar os olhares dos curiosos que já lotavam as redondezas. A confirmação veio por um policial militar: “Ele me falou: ‘era o corpo da Marília Mendonça’”.
No dia do acidente, a primeira entrada de Hérisder ao vivo foi na GloboNews com César Tralli. Ele achou que seu trabalho estava prestes a se encerrar quando foi surpreendido pelo anúncio de que iria participar do boletim em rede nacional.
O repórter precisou lidar com as limitações técnicas para desempenhar a cobertura. Além da atuação solo, o baixo sinal de internet também foi um percalço. “Eu fiquei em um local bastante íngreme, mas o suficiente para colocar o tripé e fazer a entrada ao vivo onde tivesse conexão de internet”, relembra.
Outro empecilho foi a impossibilidade de informar em tempo real sobre a gravidade do acidente, já que a intenção era que as famílias fossem comunicadas previamente. Todo esse contexto, Hérisder confessa, causou nervosismo.
“Foi a primeira vez que eu entrei em rede nacional pela Globo e a segunda vez que eu entrei ao vivo para a GloboNews. Então, eu não tinha uma experiência de rede. Estava bastante nervoso no começo, porque eu não esperava. O nervosismo não era só pela primeira vez em rede nacional, mas também por ter informações e não poder passar todas as informações.”
Hérisder não é consumidor de música sertaneja e, além do nome, pouco conhecia da carreira meteórica de Marília. A familiaridade era tão pequena que descobriu ao vivo, através de Ana Paula, que ela carrega o título de “Rainha da Sofrência”. O tempo em que ficou ao vivo na Globo naquele 05 de novembro e as mais de 10 entradas que fez na emissora durante o fim de semana, definitivamente, o ajudaram a compreender o fenômeno.
“É um misto de sensações. Confesso que eu não tinha a proporção real do que iria atingir a cobertura, porque eu não conhecia muito da Marília Mendonça. Eu não sabia que ela tinha realmente esse peso todo para os brasileiros, não é o estilo de música que eu acompanho. Mas foram cinco vidas que se perderam.”