A famosa frase “mistura do Brasil com o Egito”, eternizada pelo grupo de axé É O Tchan, poderia muito bem se transformar em fragrância. Isso porque a paixão por perfumes une brasileiros e a icônica Cleópatra, última rainha do Antigo Egito.
O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking mundial de consumo de fragrâncias, atrás apenas dos Estados Unidos, segundo a Euromonitor International. Já a soberana egípcia era conhecida por seu fascínio por essências aromáticas e teria entre seus favoritos o perfume mendesiano, criado na antiga cidade de Mendes.
Mais de 3 mil anos depois, pesquisadores alemães revelaram os ingredientes da loção que teria encantado Cleópatra. A composição inclui canela, óleo de balanos, resinas e mirra. A fórmula foi reproduzida em 2023 pelo laboratório Quimidex, vinculado ao Departamento de Química da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e pode ser conhecida na exposição permanente “A química dos perfumes”.
A palavra “perfume” vem do latim e significa “fumaça”, remetendo aos primeiros rituais com vegetais queimados em homenagem aos deuses. No Egito, há cerca de 3 mil anos antes de Cristo, fragrâncias já eram usadas para fins pessoais, em águas perfumadas, óleos essenciais e incensos.
Hoje, a perfumaria incorpora até mesmo inteligência artificial para identificar tendências e combinações inéditas. Segundo Anelise Regiani, professora da UFSC e coordenadora do Quimidex, a tecnologia auxilia na criação, mas “no final, tudo passa pelo nariz do perfumista”.
Dados da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos apontam que o setor movimentou US$ 1,5 bilhão em 2022. Essa devoção aos cheiros tem raízes históricas: povos indígenas já utilizavam ervas na higiene pessoal, enquanto culturas africanas trazidas por negros escravizados recorriam a plantas aromáticas em rituais de purificação e cura.
Hoje, borrifar fragrâncias no corpo, nas roupas e até em ambientes é hábito nacional. “Gostamos de pôr perfume em tudo, até no inseticida”, brinca Regiani. A maioria, cerca de 90%, prefere perfumes nacionais, segundo o Sebrae.
Na exposição do Quimidex, o visitante pode sentir o aroma amadeirado da priprioca, o adocicado do cumaru, a “baunilha brasileira”, e o óleo essencial de pau-rosa, usado no clássico Chanel Nº 5.
Segundo a revista Super Interessante, o trabalho de reconstrução da fragrância mendesiana foi liderado por Robert Littman e Jay Silverstein, da Universidade do Havaí. Em 2021, escavações em Thmouis, próxima a Mendes, encontraram vestígios de uma fábrica de perfumes de 2,3 mil anos, com fornos e recipientes de argila contendo resíduos aromáticos.
A análise química dos frascos e relatos gregos e romanos indicaram ingredientes como óleo de tâmara, mirra, canela e resina de pinheiro. Ao contrário dos perfumes atuais, feitos à base de álcool, os egípcios utilizavam óleo vegetal ou gordura animal como base, obtendo os aromas pela queima ou maceração de plantas e especiarias.
O resultado, apelidado de “Eau de Cleopatra”, teria aroma adocicado e marcante, capaz de permanecer potente por até dois anos, qualidade que ajudava a torná-lo cobiçado pela elite do Mediterrâneo.
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