O futebol permite uma série de histórias de superação não só no Brasil como em outros países do mundo. Escalado para o clássico contra o Vasco (nesta quinta, 29, 20h no Nilton Santos; Amzon Prime exibe), o meio-campista do Flamengo Erick Pulgar, 32 anos e desde 2022 no rubro-negro, é um exemplo.
Com mais de 10 títulos no currículo, a grande maioria pelo clube do Rio, o chileno que hoje mora em mansão nasceu em Antofagasta, uma pequena cidade com menos de 402 mil habitantes e distante mais de 1.300 quilômetros da capital, Santiago. Quando criança, o futuro jogador nascido em família de quatro irmãos enfrentou a fome em um cenário bem longe do salário de R$ 1,1 milhão que ganha atualmente no Flamengo.
A fase difícil da vida foi lembrada pelo ex-zagueiro Rodrigo Barra. "Percebemos que o Erick estava agindo de forma estranha; notávamos que ele parecia cansado. Depois, soubemos que ele estava há dois ou três dias sem comer. Ele não tinha dinheiro. Ele mesmo não contou, ficamos sabendo por meio de um amigo dele", relatou ao portal "La Tercera" (Chile).
O técnico Gustavo Huerta, o primeiro de Pulgar como profissional em 2011 e aos 17 anos, acrescentou que houve uma tentativa de encaminhar o atleta para uma pensão. "Ele tinha dificuldades para se alimentar. No clube, quiseram levá-lo para uma pensão, mas a família de Erick se opôs. Eles queriam cuidar dele. Sua família sempre foi seu principal apoio", garantiu.
Enteado de um taxista, o hoje jogador rubro-negro contou com a ajuda do presidente do Antofagasta, time da cidade de mesmo nome, na época. "A família de Erick passava por dificuldades, mas nós o ajudamos. Conversamos com o Osciel Guzmán e conseguimos que lhe dessem dinheiro para se alimentar", acrescentou Víctor Oyarzún, ex-companheiro de time do meio-campista.
Antes de chegar à equipe, porém, Pulgar chegou a dizer "não" para o clube chileno. "Foi difícil convencê-lo. Infelizmente, clubes amadores muitas vezes oferecem mais do que as equipes profissionais. No Antofagasta, não dão nem uma Coca-Cola para os jogadores das categorias de base", lembrou Huerta.
Outro relato aponta que no começo da carreira como profissional, Pulgar precisava andar 40 quilômetros todo dia para poder treinar. Já como profissional, uma tragédia cruzou o caminho do jogador apaixonado por tatuagens: em 2013, um idoso de 66 anos morreu atropelado ao ser atingido pelo carro dirigido pelo chileno, que teve a habilitação suspensa.
"Não é uma boa lembrança para ele. Sofreu muito com esse assunto; viveu, ainda muito jovem, coisas que não deveria ter vivido. É um assunto encerrado, e não quero mexer nisso", resumiu Oyarzún sobre o atleta do Flamengo, que pode abrir vantagem para o Palmeiras caso vença o Vasco.
Hoje, flamenguistas e palmeirenses têm 70 pontos, mas o rubro-negro leva vantagem no número de vitórias (21x20) para a equipe alvi-verde, que empatou sem gols com o Santos na 33ª rodada do Campeonato Brasileiro.