Uma família vive isolada na floresta, sem contato com ninguém. Estamos na Sibéria, em meados da década de 1930, e, para todos os seus membros, mais de quarenta anos se passam como se o mundo tivesse parado.
Parece o enredo de um filme - mais especificamente, “A Vila” (2004), de M. Night Shyamalan - mas não estamos falando de nenhuma ficção.
Trata-se da vida real dos Lykov, uma família que realmente viveu na taiga siberiana, completamente isolada da civilização. Sem rádio, eletricidade, notícias e, portanto, sem saber que uma guerra mundial havia eclodido e que o ser humano havia chegado à Lua.
Tudo começou no ano de 1936, quando a Rússia enfrenta uma onda de repressão. Nesse contexto histórico, uma patrulha bolchevique atirou e matou o irmão de Karp Lykov, um homem que pertencia aos chamados “velhos crentes”, um ramo do cristianismo ortodoxo que se opunha às reformas realizadas pela igreja. Naquele momento, Karp percebeu que o próximo podia ser ele, mas não quis esperar para ter certeza e decidiu desaparecer.
Ele pegou sua esposa, Akulina, seus dois filhos pequenos e o pouco que possuía (algumas roupas, utensílios básicos e sementes) para se adentrar na floresta. Eles não tinham nenhum plano, apenas um objetivo: se afastar o suficiente para nunca serem encontrados - o que conseguiram com muito êxito.
Eles se aventuraram na taiga (também conhecida como floresta boreal), uma região imensa e inóspita no sul da Sibéria, onde os invernos são extremamente longos e frios (chegando a -50 °C) e o povoado mais próximo ficava a centenas de quilômetros de distância. Lá, construíram uma cabana e começaram uma nova vida.
Enquanto no resto da Europa se desenrolava a Segunda Guerra Mundial, os Lykov plantavam batatas. Enquanto se inventava a televisão, eles costuravam suas roupas com cânhamo. Enquanto o homem pisava na Lua, eles observavam o céu na escuridão total, onde se moviam “estrelas” estranhas.
A realidade deles era outra. Mais modesta, mais difícil e totalmente autossuficiente. Cultivavam o mínimo necessário para sobreviver, caçavam quando podiam e reutilizavam tudo até o limite. Quando ficaram sem sapatos, fabricaram outros com casca de árvore e, quando as panelas acabaram, cozinhar tornou-se um problema.
Dois filhos nasceram na cabana. Houve anos de fome, inclusive momentos em que tinham que decidir se comiam agora ou guardavam sementes para o próximo inverno. Na verdade, em um desses invernos, Akulina morreu de inanição para garantir comida para seus filhos - que foram criados acreditando que não havia nada além da floresta e que se aventurar nela poderia significar a morte de toda a família.
Em 1978, quatro geólogos sobrevoavam a região de helicóptero em busca de possíveis jazidas de minério, petróleo e gás natural. A última coisa que esperavam encontrar era uma horta. E, em seguida, uma cabana. Quando pousaram e se aproximaram, apareceu um homem com uma barba enorme e visivelmente desconfiado. Era Karp, mas ele não fugiu.
Ele não entendia muito bem quem eram aqueles desconhecidos, mas os deixou entrar. O que encontraram lá dentro não era apenas uma família: era quase uma cápsula do tempo. O interior da cabana continha utensílios rudimentares e a total ausência de qualquer objeto moderno. Mas, acima de tudo, era um lugar cujas paredes ecoavam uma forma estranha de falar, um russo deformado por décadas de isolamento. Mas o mais impactante veio depois.
Quando os geólogos contaram o que havia acontecido no mundo (a guerra, os avanços tecnológicos, as viagens espaciais), os Lykov tentaram entender tudo isso da melhor maneira possível. Os satélites, por exemplo, não eram totalmente estranhos: eles achavam que eram estrelas que se moviam mais rápido do que o normal. Já a televisão os fascinou.
A partir daquele momento, o isolamento foi quebrado. Aos poucos, começaram a receber visitas, ajuda e itens básicos. Entre eles, algo tão simples quanto o sal, que Karp descreveu como uma das coisas de que mais sentira falta em todos aqueles anos de isolamento. Mas o contato também teve um custo.
Em 1981, três dos filhos morreram em poucos dias, vítimas de doenças relacionadas à desnutrição e ao estado físico debilitado após décadas de privações. O pai também faleceu alguns anos depois.
Restou apenas Agafia, que se tornou a última Lykov. Para surpresa de todos, ela decidiu permanecer no único ambiente que conhecia: a taiga.
Ela teve a opção de se integrar à civilização, abandonar a floresta e começar uma vida diferente, mas continuou vivendo ali, em condições extremas, tal como aprendeu desde criança.
Ela faz visitas esporádicas à civilização, mas sem nunca abrir mão totalmente do isolamento que definiu sua existência. Atualmente, ela está na casa dos oitenta anos e, mais do que uma simples eremita, é conhecida como “a mulher mais solitária do mundo”.
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