Julho de 2016. Serena Williams conquistava o torneio de Wimbledon, a sonda Juno entrava em órbita de Júpiter, o Brasil vivia a expectativa para os Jogos Olímpicos do Rio e o público conhecia, pela primeira vez, Will, Mike, Nancy, Lucas, Dustin e Onze, os jovens protagonistas de “Stranger Things”.
Desde sua chegada ao Brasil, em 2011, a Netflix adotou uma estratégia agressiva para ampliar gradualmente sua popularidade — e sua receita — apostando principalmente em produções originais como “House of Cards” e “Orange Is the New Black”.
Ao convidar o público para desvendar os mistérios de Hawkins, uma pequena cidade de Indiana atormentada por acontecimentos sobrenaturais, a plataforma conseguiu romper uma importante barreira.
Segundo estimativas, as quatro primeiras temporadas da série acumularam mais de 1,2 bilhão de visualizações na Netflix e geraram um impacto de US$ 1,4 bilhão na economia americana.
Já a quinta e última temporada, encerrada em janeiro, entrou para o Top 5 dos conteúdos mais assistidos da história da plataforma — atrás apenas da quarta temporada — e ainda concorre em sete categorias do próximo Emmy.
Para a Netflix, “Stranger Things” foi o cavalo de Troia que permitiu à empresa se instalar definitivamente nas casas e nos hábitos de consumo do público. Não à toa, em 2016, o serviço aumentou sua base global de assinantes em 25%, encerrando o ano com 93,8 milhões de assinantes mundiais.
Nos anos seguintes, esse movimento apenas acelerou, impulsionando o crescimento do mercado de streaming por assinatura. Hoje, a Netflix soma 325 milhões de assinaturas pagas em todo o mundo, com estimativas de mercado apontando que o Brasil representa cerca de 18 milhões delas.
Mas o impacto de Stranger Things vai muito além das horas assistidas. Em dez anos, a série criada pelos irmãos Duffer — hoje entre os produtores mais influentes da televisão — deixou sua marca em praticamente todos os setores da cultura pop, liderando um verdadeiro renascimento dos anos 1980.
Por muito tempo considerada cafona, com seus cortes de cabelo duvidosos e camisas coloridas, a década também foi responsável por uma era de ouro do cinema de aventura.
Um grupo de amigos andando de bicicleta e enfrentando figuras de autoridade para cumprir uma missão? É impossível não enxergar a homenagem a “Os Goonies”, “E.T. – O Extraterrestre” — dois clássicos do universo de Steven Spielberg — e também a “It – A Coisa”, de Stephen King, de onde “Stranger Things” empresta parte de sua atmosfera de horror.
Não por acaso, “It” ganhou uma nova adaptação em dois filmes dirigidos por Andrés Muschietti, além de uma série prequela da HBO, "It: Bem-Vindos a Derry".
O mais curioso é que, depois de beber das melhores referências daquela época, “Stranger Things” acabou se tornando referência para a própria indústria.
Filmes como “Verão de '84” (2018) e séries como “Paper Girls” (2022), do Prime Video, repetiram a fórmula de adolescentes de bicicleta envolvidos em um grande mistério na esperança de alcançar um sucesso semelhante.
Outra prova da influência da série é a quantidade de filmes e produções televisivas ambientadas nos anos 1980 lançadas desde então, como “I Am Not Okay With This” (2020), “American Horror Story: 1984” (2019) e “GLOW” (2017).
Também vale lembrar o retorno de franquias clássicas da década, como “Ghostbusters: Mais Além” (2021) e “Indiana Jones e a Relíquia do Destino” (2023).
A fórmula também funcionou perfeitamente na música.
Em 2022, “Running Up That Hill (A Deal with God)”, de Kate Bush, lançada originalmente em 1985, voltou ao topo das paradas internacionais graças ao uso da canção em uma cena marcante envolvendo Max na quarta temporada de “Stranger Things”.
E esse está longe de ser um caso isolado. “Master of Puppets”, do Metallica, “When Doves Cry” e “Purple Rain”, de Prince, além de “Every Breath You Take”, do The Police, também ganharam uma nova onda de popularidade graças à trilha sonora da série.
Na verdade, essa onda retrô passou a influenciar até a música atual. “Blinding Lights”, de The Weeknd — a canção mais reproduzida da história do streaming — é construída sobre sintetizadores típicos dos anos 1980. “Physical”, de Dua Lipa, aposta em um groove irresistível e faz referência direta a Olivia Newton-John.
E essa nostalgia continua inspirando artistas em 2026. Charlie Puth lançou, no início de março, “Whatever's Clever!”, seu quarto álbum de estúdio, fortemente influenciado pelo pop com toques de jazz de Phil Collins — um disco que vale a pena conhecer.
A influência dos anos 1980 chegou até ao cotidiano. Desde 2016, objetos icônicos da época, como o walkman e as fitas cassete, voltaram à moda em um mercado musical cada vez mais movido pela nostalgia.
Outros setores também embarcaram nessa tendência, especialmente os videogames. Em 2017, a Netflix lançou seu próprio jogo mobile de ação e aventura inspirado em “Stranger Things”, com visual em pixel art.
Já o estúdio francês Don't Nod Entertainment incorporou vários elementos da série em “Lost Records: Bloom & Rage”, aventura narrativa episódica lançada em 2025.
Nem os jogos de tabuleiro escaparam do chamado "efeito Stranger Things". “Dungeons & Dragons”, considerado o primeiro RPG de mesa da história, registrou um aumento de vendas sem precedentes em três décadas depois da enorme exposição conquistada graças aos personagens geeks da série.
Uma edição especial inspirada no Hellfire Club — o clube fictício liderado por Eddie Munson — também foi lançada, enquanto a própria Netflix publicou um tutorial no YouTube para quem nunca havia jogado.
O império de “Stranger Things” também foi construído sobre uma poderosa estratégia de merchandising, firmando ao longo dos anos parcerias com marcas como H&M, Funko Pop e McDonald's. Roupas, bonecos, brinquedos... A série provavelmente se tornou a franquia original mais poderosa entre as propriedades intelectuais criadas nos últimos anos.
Outro indicador do alcance da série está na carreira de seus atores, que se transformaram em grandes estrelas de Hollywood.
Esquecida durante anos e reduzida às manchetes sensacionalistas da imprensa de celebridades, Winona Ryder protagonizou uma das maiores histórias de reabilitação de imagem da indústria do entretenimento.
David Harbour, quando não inspira o mais recente álbum de "vingança" de Lily Allen, segue em grandes franquias baseadas em quadrinhos, como “Hellboy” e o Universo Cinematográfico da Marvel, onde interpreta o Guardião Vermelho.
Millie Bobby Brown, por sua vez, tornou-se produtora de seus próprios filmes aos 22 anos, incluindo o terceiro “Enola Holmes”, da Netflix. Já Finn Wolfhard assumiu papel de destaque na nova fase da franquia “Ghostbusters”.
Sem falar em Joe Keery, o Steve da série, que também conquistou sucesso na música sob o nome artístico Djo. Seu single “End of Beginning”, lançado em 2022, alcançou o primeiro lugar nas paradas de nove países, incluindo o Reino Unido, e já ultrapassa 2,78 bilhões de reproduções no Spotify.
O legado de Stranger Things também continua vivo em seus próximos projetos.
Embora a série principal tenha chegado ao fim com um desfecho em aberto para alguns personagens — deixando espaço para um eventual retorno —, a Netflix já deu início à expansão da franquia. A animação “Stranger Things: Tales From '85” estreou em abril, enquanto outra série derivada já está em desenvolvimento.
"Estamos levando isso com muita calma. Nosso objetivo é a excelência. Ninguém quer fazer algo apenas por fazer. Tem que ser incrível; caso contrário, não faz sentido. Esse é mais ou menos o nosso pensamento" — disseram Matt e Ross Duffer
Ao que tudo indica, o Mundo Invertido ainda está longe de parar de mexer com a cabeça do público.
player2