O que é algo bem frequente em várias famílias voltou a ganhar os holofotes após a conclusão de um recente estudo: as crianças que ajudam nos cuidados dos irmãos menores. Em muitos casos, esse hábito é considerado algo simples ou uma obrigação ligada às tarefas de casa. Porém, na realidade, esconde algo que pode causar um importante impacto em termos de desenvolvimento emocional e social dessas crianças.
Tais pesquisas da psicologia indicaram que a experiência acaba sendo um "treinamento invisível", responsável por fortalecer a empatia, descrita como uma habilidade fundamental. Não podemos deixar de lembrar que a empatia nada mais é do que a capacidade que uma pessoa tem de compreender as emoções de outros indivíduos e responder a tais sentimentos.
Por isso, aponta-se a empatia como algo fundamental para se viver em sociedade e para desenvolver relacionamentos saudáveis. A base central do que vamos contar se baseia em pesquisa desenvolvida por Beatrice e John Whiting, que gerou o livro "Children of Six Cultures: A Psycho-Cultural Analysis" ("Crianças de Seis Culturas: Uma Análise Psico-Cultural") e também em no livro "Young Children Close Relationships" (algo como "Relacionamentos Próximos de Crianças Pequenas"), de Judy Dunn.
Ainda de acordo com os especialistas, uma criança responsável pelos cuidados do irmão caçula acaba sendo obrigada a perceber de forma atenta sinais que ultrapassam o próprio eu. Assim, cabe a criança notar quando o irmão ou irmã está apresentando desde tristeza a raiva e cansaço, ou se simplesmente necessita de alguma coisa.
Além da empatia, a inteligência emocional acaba fortalecida nessas situações. Porém não se resume-se a isso. Há um fortalecimento da paciência, comunicação e da resolução de conflitos. Principalmente quando o cuidador tem que mediar brigas ou auxiliar o irmão/irmã a ficar calmo.
Assim, a criança desenvolve a negociação e aprende como se comportar diante de quadros emocionais de maior complexidade. Com essa experiência, a adaptabilidade seja na escola ou na prática de esportes também fica melhor. Da mesma forma, a relação com colegas é aprimorada, o trabalho em grupo flui de forma mais fácil, e a criança fica mais pré-disposta a cooperar.
E está enganado quem pensa que os benefícios ficam na infância. A adolescência e a vida adulta são igualmente impactadas quando se aprende aquelas habilidades quando menor. Para os especialistas, destacam-se:
- Ficar mais tolerante diante de uma frustração
- Regulação emocional em níveis melhores
- Sensibilidade maior diante das necessidades dos demais
Também se nota uma tendência de se desenvolver habilidades relacionadas à liderança. O motivo? As crianças responsáveis pelos cuidados de outras ficam mais confiantes quando precisam não só ajudar aos demais como a tomar decisões.
Já na adolescência, os ganhos estão relacionados a melhores relacionamentos entre as pessoas, uma capacidade melhor para solucionar problemas, e também a se adaptar de forma igualmente melhor a vários ambientes sociais distintos. Quando olhamos a longo prazo, os benefícios atingem o local do trabalho.
Ainda mais em profissões onde a interação com os outros é peça-chave. Aí estão as áreas da saúde e da educação.
Não custa reforçar que esse cuidado de uma criança para com os irmãos mais novos não deve ser sinônimo de pressão. Dessa forma, cabem aos pais gerar a situação da melhor forma, seguindo essas dicas:
- Não se deve passar para os filhos maiores responsabilidades que cabem aos adultos. Ou seja, deve-se passar tarefas próprias para a idade. Se por um lado os maiores podem ajudar a acalmar os menores ou distrai-los com jogos, por outro quando se trata de riscos ou decisões críticas isso não deve ser exigido.
- Os filhos mais velhos têm que saber que os pais estão presentes quando eles cuidarem dos irmãos. As crianças são impactadas de forma positiva em termos de empatia quando notam que dão apoio, contudo os adultos é que ficam com a última responsabilidade.
- O tempo das crianças mais velhas precisa ser respeitado. Dessa forma, elas não podem trocar estudos, passeios ou momentos de brincadeira para cuidar dos irmãos. A ajuda precisa ser feita de forma equilibrada e ocasionalmente, afim dos mais velhos não terem o sentimento de que estão tendo a infância reduzida.
Por fim, o irmão mais velho tem que ter reconhecidas e compreendidas suas emoções. Para que não se desenvolvam problemas emocionais.
Reforça-se que os especialistas advertem para que não haja uma sobrecarraga nas crianças com tarefas inadequadas para as idades delas. Assim, o impacto positivo na vida dos filhos maiores só acontece quando o cuidado é próprio para a idade, apoiado pelos adultos e que aconteça de forma equilibrada.
Do contrário, estresse, ansiedade e sobrecarga emocional inadequada podem surgir. Daí a importância da coparticipação dos adultos. A ciência, por isso, aponta que é preciso que o cuidado ocorra em ambiente saudável para que as habilidades sociais e as emocionais essenciais sejam desenvolvidas da melhor forma.
Reforça-se de novo que a empatia e a responsabilidade só são desenvolvidas quando o ambiente ao redor é de aprendizado e não de fardo, deixando ofuscada as necessidades da criança mais velha. Por isso, o "cuidador mirim" se sente útil e capaz quando está diante de cuidados próprios para a sua idade.
Em contrapartida, o "cuidado parental" pode surgir se a criança de forma crônica passa a ser responsável por atitudades dos adultos. A criança precisa do seu tempo e de sua liberdade, compreendendo ainda que é de valor a sua ajuda, contudo não algo indispensável para o funcionamento daquela família.
O cuidado da criança mais velha com a menor tem como foco o desenvolvimento de adultos que sejam mais sensíveis e colaborativos e que possam compreender as necessidades das demais pessoas sem abrir mão do próprio bem-estar emocional.
É importante notar que a criança pode apresentar alguns comportamentos por estar justamente assumindo responsabilidades acima do limite. Cabe aí a ajuda de um profissional:
- Insônia, falta de energia e cansaço frequente.
- Não há tempo para se dedicar aos estudos, tampouco para as brincadeiras, descanso ou para os próprios amigos.
- A criança fica mais ansiosa, irritada ou reclama com frequência.
- Os "pequenos cuidadores" desenvolvem angústia em relação aos problemas da família ou dos adultos e que não cabem a elas resolver.
- Achar que se algo de errado ocorrer com os irmãos mais novos, a culpa é delas.
- Passam a agir de forma responsável e séria ao extremo, como se fossem adultos.
- Desenvolvimento da submissão, temendo que sejam abandonados, passando a apresentar baixa auto-estima em caso de não term sido úteis.
- As crianças podem peder parte da infância.
- Os filhos maiores podem agir diante de conflitos dos pais ou acabam por consolar a eles, a chamada parentificação emocional.
- Apresentam dificuldade diante de cenários que fogem dos seus controles.