Nos últimos anos, a Globo tem realizado um feito histórico antes nunca realizado em suas novelas ao apostar em três protagonistas pretos nas principais faixas de horários.
Duda Santos, em 'Garota do Momento'; Clara Moneke em 'Dona de Mim'; e Taís Araújo, em 'Vale Tudo' são representações sólidas de que a Vênus Platinada, no ano em que comemora 60 de história, perdeu o medo de arriscar e investe com afinco em papéis relevantes para suas intérpretes, bem longe do estereótipo das amigas das protagonistas ou empregadas domésticas.
Porém, esse movimento positivo contrasta com episódios recentes que parecem bem distante da atualidade. Um exemplo marcante foi a novela 'Segundo Sol'.
O folhetim de João Emanuel Carneiro foi alvo de críticas justamente pela falta de atores negros no elenco. Além da ausência, o elemento principal que causou rejeição do público foi o fato de que a novela se passava na Bahia, estado com a população majoritariamente negra.
Nesse sentido, o ator Emílio Dantas, intérprete do protagonista Beto Falcão, destacou em entrevista ao UOL, que, com a mentalidade que possui hoje, não aceitaria o papel.
“Foi muito errado eu ter feito o Beto Falcão. Jamais deveria ter aceitado esse papel. Não por conta do autor ou da empresa. É que não condiz com a realidade. A Bahia é feita 95% de pretos e quem deveria estar contando essa história era um preto. Acordei para isso muito tarde”, pontuou.
As críticas em torno da novela de João Emanuel Carneiro ganharam um viés social. O Ministério Público do Trabalho intercedeu, solicitando que a Globo promovesse alterações no enredo.
No entanto, o diretor artístico Denis Carvalho não aceitou a interferência. "Não quero a obrigação. 'Tem que': é feminista, tem que ter negro, tem que ter não sei o quê. Não. As cobranças são maiores hoje, ótimo. Mas não vou colocar um personagem por obrigação", declarou ao jornal Folha de S.Paulo, na época da novela. Já o novelista reconheceu o erro. "Foi um processo educativo para todos nós", declarou João Emanuel Carneiro.