Quando "Segundo Sol" estreou em 2018, a novela chegou cercada de expectativa - e de controvérsia. Ambientada na Bahia, mas com elenco majoritariamente branco, a trama de João Emanuel Carneiro virou alvo de críticas ainda nas primeiras semanas. Sete anos depois, um dos nomes diretamente afetados por essa rejeição pública admitiu que carrega o peso daquela escolha: Emílio Dantas, protagonista da história, reconheceu que não deveria sequer ter aceitado o papel.
Em entrevista ao UOL, o ator foi direto, sem rodeios, sobre a autocrítica que o acompanha desde então: “Foi muito errado eu ter feito o Beto Falcão. Jamais deveria ter aceitado esse papel". A fala expõe a dimensão do desconforto que ele passou a sentir ao revisitar a novela com o distanciamento do tempo e o avanço das discussões sobre representatividade na teledramaturgia.
A polêmica em torno da novela não era pequena. Exibir um estado cuja população é majoritariamente negra por meio de uma narrativa protagonizada quase exclusivamente por artistas brancos gerou críticas de militantes, pesquisadores e parte do público. O Ministério Público do Trabalho chegou a notificar a Globo, cobrando reparação e coerência na escalação.
O incômodo atingiu o próprio intérprete de Beto Falcão, que reconheceu que sua presença no centro da história reforçava a distorção. Na mesma entrevista ao UOL, Dantas pontuou: “A Bahia é feita 95% de pretos e quem deveria estar contando essa história era um preto. Acordei para isso muito tarde".
Na ocasião, o diretor artístico Denis Carvalho não aceitou a interferência do MPT. "Não quero a obrigação. 'Tem que': é feminista, tem que ter negro, tem que ter não sei o quê. Não. As cobranças são maiores hoje, ótimo. Mas não vou colocar um personagem por obrigação", declarou ao jornal Folha de S.Paulo, na época da novela. Já o novelista reconheceu o erro. "Foi um processo educativo para todos nós", declarou João Emanuel Carneiro.