56 dias de paixão e um beijo adiado: 21 anos após 'América' e quase 3 anos depois de Kelvin e Ramiro, por que o romance de Mau Mau e Felipe, de 'Quem Ama Cuida', ainda incomoda?
Publicado em 20 de outubro de 2026 às 21:02
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Por Luiz Eugênio de Castro | Reality show, redes sociais e TV
Leonino apaixonado por entretenimento e cultura pop! Filho legítimo de Britney Spears e obcecado pela Anitta, claro!
Entre o beijo de Júnior e Zeca, cortado em 'América', e o romance de Mau Mau e Felipe, a teledramaturgia avançou, mas a resistência ao afeto entre dois homens continua em pauta
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Por que é que o amor entre duas pessoas incomoda tanto alguém? O que faz um beijo, um gesto tão simples de carinho, virar motivo de revolta? Em que momento demonstrar afeto se tornou algo que precisa ser justificado, especialmente quando estamos falando de duas pessoas do mesmo gênero?

Eu queria muito que essas perguntas já não precisassem ser feitas em 2026. Mas basta acompanhar a repercussão em torno de Mau Mau (João Victor Gonçalves) e Felipe (Pietro Antonelli), de "Quem Ama Cuida", para perceber que ainda estamos longe disso...

Beijo de Mau Mau e Felipe foi adiado pela TV Globo

O beijo dos dois estava previsto para ir ao ar em 20 de outubro, mas acabou adiado. Segundo informações publicadas pelo portal LeoDias, fontes ouvidas pela coluna de Carla Bittencourt atribuíram a mudança a uma preocupação com possíveis reações negativas do público. Vale destacar que a Globo não confirmou oficialmente essa justificativa, mas escolheu o silêncio.

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Só que uma coisa é discutir o ritmo de uma novela. Outra, bem diferente, é chegar a 2026 e ver o primeiro beijo de dois rapazes virar uma questão tão delicada a ponto de provocar esse tipo de debate. E olha que não estamos falando de uma história que surgiu do nada, sem construção ou sem torcida! Mau Mau e Felipe vêm conquistando espaço aos poucos, e muita gente está acompanhando cada olhar, cada aproximação, cada tentativa de entender o que sente.

Por que, então, é tão difícil deixar esses meninos viverem esse amor?

De 'América' a 'Terra e Paixão': 21 anos de espera, avanços e retrocessos

Voltemos a 2005. Naquele ano, "América" apresentou Júnior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro), um casal masculino que entrou para a história da teledramaturgia por um motivo que não deveria ter sido tão marcante: o beijo dos personagens foi gravado, mas acabou cortado da exibição. O público que esperava ver aquele momento ficou sem ele.

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Nove anos depois, em 2014, Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) protagonizaram, em "Amor à Vida", um selinho no último capítulo. Foi breve? Foi. Mas também foi histórico. Naquele momento, a Globo finalmente colocou no ar um beijo entre dois homens em uma novela sua, depois de anos de expectativa e de uma discussão que parecia não ter fim...

E então veio "Terra e Paixão". Kelvin (Diego Martins) e Ramiro (Amaury Lorenzo) conquistaram uma torcida enorme e ganharam algo que, durante muito tempo, pareceu tão difícil de alcançar na televisão aberta: uma história de amor com direito a demonstrações de carinho, casamento e final feliz.

Os dois chegaram a trocar um beijão que durou mais de 30 segundos. Sim, mais de meio minuto de dois homens se beijando no horário nobre! E não estamos falando apenas de um momento isolado não! O casal já havia protagonizado cenas marcantes ao longo da novela, incluindo o beijo durante a sequência do espaguete, em setembro de 2023, e outro beijo apaixonado em dezembro daquele ano.

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É claro que cada novela tem sua história, seus conflitos e suas escolhas de roteiro. Mas como não olhar para essa trajetória e se perguntar por que, tantos anos depois, ainda estamos discutindo se dois homens devem ou não se beijar na televisão?

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A conta de Mau Mau e Felipe não fecha

Vamos aos números, porque eles também contam essa história. Até 20 de outubro de 2026, Mau Mau e Felipe ainda não haviam protagonizado nenhum beijo exibido em "Quem Ama Cuida". A conta é: zero beijos e um quase beijo.

O gshow já destacava o encantamento de Mau Mau por Felipe em 25 de agosto. De lá até 20 de outubro, passaram-se 56 dias. São quase dois meses acompanhando a aproximação dos personagens, a descoberta dos sentimentos e aquela expectativa que todo mundo que torce por um casal conhece muito bem.

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Na sequência prevista para 20 de outubro, os dois chegam perto de se beijar, mas Felipe recua. O beijo foi anunciado para os capítulos seguintes, previstos para a semana de 26 de outubro. 

Não acho que todo casal precise correr para chegar ao beijo. Pelo contrário! Uma paixão que nasce devagar pode render cenas lindas, conflitos interessantes e uma identificação enorme com o público. O problema é quando a espera começa a parecer interminável, principalmente porque estamos falando de uma história que já conquistou tanta gente e que, até aqui, parece precisar caminhar com cuidado redobrado.

Mau Mau tem medo, inseguranças e o preconceito do próprio avô para enfrentar. Felipe também está tentando compreender os próprios sentimentos. Há material de sobra para uma trama delicada, bonita e emocionante. Mas uma coisa é desenvolver esses conflitos; outra é deixar a sensação de que o casal precisa esperar mais do que os outros para chegar a um gesto tão comum quanto um beijo.

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Loquinha mostrou que existe público para esse amor

E não dá para falar de representatividade na Globo em 2026 sem lembrar de Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovsky), o casal conhecido como Loquinha em "Três Graças".

A relação das duas ganhou tanta repercussão que virou uma produção vertical derivada da novela, com 25 episódios. Segundo reportagem do Notícias da TV publicada em maio, o conteúdo alcançou 198 milhões de acessos nas plataformas digitais.

Centenas de milhões de acessos! É um número expressivo e que mostra o potencial de uma história LGBTQIA+ quando ela encontra espaço para se desenvolver e chegar ao público. Claro que o formato e a distribuição são diferentes dos de uma novela exibida na televisão, e os acessos não significam que todos os espectadores tenham a mesma opinião sobre o casal. Ainda assim, o alcance não pode ser ignorado.

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Loquinha conquistou fãs, ganhou uma produção própria e teve sua história ampliada. E que bom! O sucesso de um casal não deveria ser visto como ameaça ao outro. Pelo contrário: quanto mais personagens LGBTQIA+ tiverem espaço, mais histórias diferentes poderão ser contadas. Mas fica a pergunta: por que o romance entre duas mulheres pode ganhar tamanha repercussão enquanto o beijo entre dois homens ainda provoca tanta discussão?

Será que parte do público aceita mais facilmente duas mulheres juntas porque enxerga essa relação por uma perspectiva de fetichização masculina? Por que ainda existem tantos critérios diferentes para julgar demonstrações de carinho dependendo de quem está se beijando? Se uma história de amor entre duas mulheres pode emocionar, mobilizar fãs e ganhar novos formatos, por que a de dois rapazes precisa ser recebida com tanta resistência?

Mau Mau não é só um beijo... é sobre se reconhecer na tela

Tem outro detalhe que não podemos deixar passar. A história de Mau Mau e Felipe ganhou força também por causa da mobilização dos fãs nas redes sociais. O romance, segundo o Notícias da TV, não era o centro original da trajetória do personagem, mas o interesse do público ajudou a mudar os rumos da trama.

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Em entrevista ao F5, da Folha, publicada em outubro de 2026, João Victor Gonçalves comentou a força da internet e o poder da chamada obra aberta. O ator também falou sobre a identificação de pessoas LGBTQIA+ com Mau Mau e sobre a experiência de precisar se esconder.

"Eu nunca imaginei que um personagem na minha primeira novela fosse gerar tanta identificação. No começo, ele estava ali para dar assistência à família que estava sofrendo tanto. Ao longo do tempo, isso foi mudando, e o Mau Mau começou a contar a própria história", disse ele.

E é aí que essa história fica ainda mais importante! Mau Mau não é apenas um rapaz apaixonado por outro rapaz. É um jovem que tenta compreender o que sente, que precisa lidar com o preconceito dentro da própria família, que ajuda as pessoas ao redor e que deseja encontrar seu lugar no mundo. 

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Ele pode ser doce, engraçado, inseguro, contraditório. Pode errar, amadurecer e se apaixonar. Pode viver tudo aquilo que a ficção sempre permitiu aos personagens heterossexuais.

Quando um personagem assim ganha espaço, muita gente se reconhece nele. Há espectadores que passaram anos sem ver uma história parecida com a sua na televisão. Há quem tenha enfrentado a rejeição da família, quem tenha escondido um sentimento por medo e quem ainda esteja tentando entender como viver o próprio amor sem sentir vergonha.

Para essas pessoas, o beijo não é apenas um beijo. É também a possibilidade de ver na tela algo que, durante muito tempo, foi tratado como proibido ou inconveniente.

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'Não precisa de beijo para demonstrar amor'. Será mesmo?

Confesso que uma das partes mais difíceis dessa história é abrir os comentários de uma publicação do próprio Purepeople no Instagram e encontrar pessoas questionando a necessidade do beijo.

“Não é necessário beijo para demonstrar amor”, escreveu uma pessoa. Outra comentou: “Essa Globo precisa parar com essas coisas de querer romantizar certas coisas”. Houve ainda quem defendesse que o beijo ficasse para o final. Mas é bom para quem?

Ninguém é obrigado a gostar de todos os casais de uma novela. O público pode criticar o roteiro, não se identificar com os personagens e preferir outros desfechos. Isso faz parte da relação entre uma obra e quem a acompanha. Só que existe uma diferença entre não gostar de um casal e questionar se ele deveria sequer demonstrar carinho.

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Porque, convenhamos, quantas vezes vimos casais heterossexuais se beijarem em novelas sem que a necessidade daquele gesto virasse assunto? Quantas histórias tiveram beijos, amassos, declarações e cenas de intimidade tratados como parte natural de um romance?

Em Quem Ama Cuida, Pedro e Adriana podem viver a relação deles, com suas demonstrações de afeto e seus conflitos. E devem mesmo! A questão não é tirar espaço de um casal para dar a outro. É entender por que dois jovens que também protagonizam uma história de amor parecem despertar tanta resistência quando se aproximam de um beijo.

Quantos anos mais serão necessários para que dois homens se beijando na televisão deixem de ser tratados como um problema? E, sinceramente, qual é o medo de deixar esses meninos viverem uma história de amor?

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