Interpretar uma das criminosas mais conhecidas do Brasil exigiu muito mais do que decorar falas ou reproduzir trejeitos. Para dar vida a Elize Matsunaga em "Elize: Sombras de uma Mulher", filme que estreou recentemente na Netflix e já figura entre os títulos mais assistidos da plataforma no Brasil, Lorena Comparato mergulhou em uma preparação intensa.
Além de estudar o caso e até fazer aulas de pole dance, a atriz revelou que contou com um acompanhamento psiquiátrico para conseguir lidar com o peso emocional da personagem.
Em entrevista à VEJA, divulgada nesta sexta-feira (24), a artista abriu o jogo sobre os bastidores do trabalho e explicou que precisou estabelecer uma separação clara entre sua vida pessoal e a mulher condenada pelo assassinato de Marcos Kitano Matsunaga, morto e esquartejado em 2012.
Entre todas as etapas da preparação, uma chamou atenção. Lorena contou que fez acompanhamento com a psiquiatra Cecília Grois, em São Paulo, para enfrentar a carga psicológica exigida pelo papel. "Eu fazia sessões para mim e para a Elize. Acho que, de certa forma, na minha carreira isso sempre foi muito natural. De ter a personagem e de ter eu. Isso me ajuda a manter a sanidade", afirmou.
A atriz deixou clara a preocupação em estabelecer limites entre sua própria identidade e uma personagem inspirada em um caso real, que desperta forte comoção em todo o país.
Mas esse não foi o único preparo. Lorena também contou que fez aulas de pole dance, estudou anatomia e mergulhou em documentos relacionados ao processo para construir sua interpretação.
Curiosamente, o primeiro contato da atriz com a história aconteceu anos antes de ela imaginar que viveria Elize nas telas.
Lorena revelou que assistiu ao documentário "Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime", lançado pela Netflix em 2021, quando a produção estreou. Admiradora do gênero true crime, ela disse que aquele material acabou se tornando seu principal ponto de partida para a composição da personagem.
"Meu grande norte foi o documentário, sempre com a sensação pós-cárcere, diferente do que eu retrato no filme. É uma base de uma criação que eu posso ir para onde eu quiser, ler laudos, reportagens da época...", explicou.
A partir desse material, a atriz aprofundou a pesquisa com laudos periciais e notícias publicadas na época do crime, buscando construir uma personagem que dialogasse com os acontecimentos retratados no longa, sem reproduzir apenas uma versão documental dos fatos.
A estreia de "Elize: Sombras de uma Mulher" também recolocou o caso no centro das discussões nas redes sociais. Além do interesse pela história, a produção provocou um debate sobre a forma como parte do público passou a enxergar Elize Matsunaga, que, em algumas publicações, chegou a ser tratada como uma espécie de "diva" ou símbolo feminista.
Lorena comentou essa repercussão e fez questão de demonstrar preocupação com esse movimento. "É muito perigoso as pessoas serem fãs de uma assassina, mas acho que esse filme aflora esse tipo de tema. A gente está vivendo um machismo estrutural tem muitos anos, tem um grito por socorro, por mudança, que é muito legítimo", refletiu.
Ao mesmo tempo, a atriz evitou assumir o papel de julgadora da personagem e defendeu que o filme existe justamente para provocar reflexões. "Ela é uma assassina grotesca para uma diva pop? Para mim, é o equilíbrio sempre".
Na sequência, Lorena explicou que prefere deixar as respostas para quem está do outro lado da tela: "Eu entendo esse fanatismo de certa forma. Eu não entro no julgamento particularmente. Eu acho que como atriz justamente é ter esse olhar de fora e conseguir reproduzir as personagens do melhor jeito possível. O ideal é gerar discussão".
"Então o que é normal? Por que essa mulher ficou tão em voga? Tem alguma diferença de classe social aí? Quais são os temas em que ela estava certa? Eu prefiro deixar para o espectador do que eu propriamente mastigar e dizer o que é verdade e o que não é", complementou.