Perder o cabelo costuma ser encarado como uma derrota estética, e muitos homens recorrem a xampus, tratamentos e até cirurgias para combater a calvície. O tema ganha ainda mais destaque às vésperas da final da Copa do Mundo de 2026 entre Espanha e Argentina, já que o técnico espanhol, Luis de la Fuente, conhecido pelo visual careca, busca levar a seleção ao título.
No entanto, descobertas divulgadas há quase uma década indicam que a calvície masculina, longe de ser apenas uma questão de vaidade, pode estar associada a um menor risco de desenvolver câncer de próstata. Essa relação é resultado de anos de pesquisas que buscam entender como os hormônios responsáveis pela temida queda de cabelo também influenciam a saúde da próstata.
O estudo que sustenta essa hipótese foi conduzido pelo Fred Hutchinson Cancer Research Center e pela Universidade de Washington, e publicado na revista Cancer Epidemiology. Os pesquisadores analisaram cerca de 2 mil homens, com idades entre 35 e 76 anos, e descobriram que aqueles que começaram a ficar carecas antes dos 30 anos apresentavam um risco 29% menor de desenvolver câncer de próstata. Entre os participantes que conviviam com a perda de cabelo havia mais tempo, essa redução chegava a 45%.
A explicação proposta pelos cientistas envolve a di-hidrotestosterona (DHT), um derivado da testosterona que provoca o encolhimento dos folículos capilares e está diretamente ligada à calvície hereditária. Os pesquisadores acreditam que uma variante genética no receptor dos hormônios masculinos possa estar por trás das duas condições, embora essa relação ainda não tenha sido totalmente esclarecida.
Para entender por que um hormônio associado ao crescimento de tumores nem sempre aumenta o risco de câncer, a Mayo Clinic explica que a testosterona estimula o crescimento das células da próstata apenas até determinado limite. Esse fenômeno é conhecido como "modelo de saturação", no qual, após certo ponto, níveis mais elevados do hormônio deixam de provocar um aumento no crescimento celular.
"Nos interessamos por essas condições porque ambas são comuns, estão relacionadas ao envelhecimento, têm influência hereditária e dependem da ação dos andrógenos", afirmou o Dr. Jonathan Wright, responsável pelo estudo, em comunicado à imprensa.
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Segundo Wright, se os resultados forem confirmados por pesquisas futuras, a calvície de início precoce poderá servir como um indicador simples para identificar homens com menor risco de desenvolver câncer de próstata ao longo da vida.
Mas é importante evitar conclusões precipitadas. A relação entre calvície e câncer de próstata ainda está longe de ser um consenso científico. Uma análise publicada no American Journal of Epidemiology encontrou justamente o contrário: após acompanhar homens por mais de 20 anos, os pesquisadores observaram que qualquer grau de calvície estava associado a um risco 56% maior de morte por câncer de próstata. Nos casos de calvície moderada, esse risco aumentava para 83%.
Essa divergência mostra que o tema ainda exige cautela. O que parece mais consistente até o momento é que a calvície de padrão masculino e o câncer de próstata compartilham uma mesma base hormonal, relacionada à sensibilidade de cada organismo aos andrógenos. Essa conexão continua sendo alvo de pesquisas.
Por enquanto, o entendimento mais equilibrado entre os especialistas é que a calvície precoce poderá, no futuro, representar apenas mais um fator dentro da avaliação do risco de câncer de próstata. Enquanto novas evidências não consolidam essa hipótese, a principal recomendação continua sendo a mesma: manter os exames preventivos e os check-ups em dia.