Em uma sociedade marcada pelo desejo de ter sempre algo novo, a felicidade parece, muitas vezes, estar a apenas uma compra de distância. É justamente sobre essa relação entre consumo e realização pessoal que uma frase de Zygmunt Bauman provoca uma reflexão incômoda: “Existem muitas maneiras de ser feliz, mas, na sociedade atual, todas passam por uma loja".
A afirmação, destacada em uma entrevista concedida pelo filósofo à revista Papel, suplemento dominical do jornal espanhol El Mundo, sintetiza parte importante do pensamento desenvolvido por Bauman ao longo de sua trajetória intelectual. O conteúdo foi abordado em matéria publicada pelo Infobae nesta segunda (20).
Para o pensador polonês, a sociedade contemporânea passou por uma transformação profunda na maneira como as pessoas se relacionam com seus desejos, seus vínculos e até com a própria identidade. Nesse cenário, o consumo deixou de representar apenas uma forma de adquirir produtos e passou a ocupar um espaço cada vez maior na construção da ideia de felicidade.
A frase não deve ser interpretada apenas como uma crítica direta ao ato de comprar. O pensamento de Bauman vai além. Sua reflexão está relacionada à forma como o mercado passou a influenciar diferentes dimensões da vida cotidiana, inclusive aquelas que tradicionalmente não estavam associadas à lógica comercial.
Estudar, contemplar uma obra de arte, participar de discussões com outras pessoas, aproveitar momentos de silêncio ou construir relações duradouras são algumas das experiências que, na visão apresentada pelo filósofo, podem proporcionar bem-estar sem necessariamente depender do consumo.
A questão é que, em uma sociedade orientada pelo mercado, essas possibilidades acabam disputando espaço com uma ideia cada vez mais presente: a de que é preciso adquirir alguma coisa para alcançar uma sensação de satisfação.
É nesse ponto que a “loja” mencionada por Bauman ganha um significado mais amplo. Ela pode ser entendida não apenas como um estabelecimento físico, mas também como uma representação de uma sociedade em que desejos e necessidades são constantemente estimulados.
Uma das ideias centrais de Vida para Consumo, livro publicado por Bauman em 2007, é justamente a percepção de que a sociedade de consumo não funciona apenas a partir da satisfação das necessidades. Seu mecanismo depende da criação contínua de novos desejos.
A lógica é simples: se uma compra fosse capaz de proporcionar uma felicidade permanente, não haveria motivo para buscar o próximo produto. Por isso, o sistema precisa que a satisfação seja passageira e que aquilo que acabou de ser conquistado perca rapidamente seu poder de encantamento.
Na interpretação de Bauman, a obsolescência não é apenas tecnológica. Ela também pode ser emocional. O indivíduo se acostuma rapidamente com aquilo que possui e passa a desejar outra coisa, em um movimento contínuo de busca por uma nova fonte de satisfação. Assim, a felicidade prometida pelo consumo nunca chega a ser definitiva. Quando um desejo é realizado, outro aparece no lugar.
O pensamento de Bauman também está relacionado ao conceito de “modernidade líquida”, desenvolvido pelo autor a partir de sua análise das transformações sociais contemporâneas.
Em seu diagnóstico, o modelo anterior de sociedade valorizava indivíduos mais estáveis, disciplinados e voltados à produção e à poupança. Com a transformação das relações econômicas e sociais, esse perfil teria sido substituído por uma lógica que privilegia consumidores rápidos, adaptáveis e constantemente insatisfeitos.
A mudança também atingiu os vínculos humanos. Se em Amor Líquido Bauman analisou a fragilidade das relações afetivas, em Vida para Consumo o autor aprofundou a discussão sobre a sociedade que transforma desejos em combustível para a economia.
É por isso que a frase sobre a felicidade e as lojas pode ser vista como uma síntese de preocupações presentes em diferentes momentos de sua obra.
Outro aspecto importante do pensamento de Bauman é a transformação do próprio indivíduo em uma espécie de mercadoria. Na sociedade de consumo, não compramos apenas produtos. Também passamos a consumir elementos que ajudam a construir a imagem que queremos apresentar aos outros. Roupas, objetos e experiências podem funcionar como ferramentas para criar uma identidade considerada desejável.
Essa lógica pode ser percebida, por exemplo, na maneira como as pessoas se apresentam nas redes sociais. A vida passa a ser exposta como uma vitrine, enquanto curtidas e outras formas de aprovação funcionam como sinais de reconhecimento.
Nesse contexto, a busca pela felicidade se mistura à necessidade de validação. O indivíduo não deseja apenas sentir-se realizado, mas também demonstrar aos outros que está realizado.
A reflexão de Bauman também levanta uma questão social delicada: se a felicidade passa pelo consumo, o que acontece com aqueles que não conseguem participar desse sistema?
Em Vidas Desperdiçadas, o filósofo se debruçou sobre a exclusão produzida pela modernidade líquida. Dentro dessa lógica, a pobreza não representa apenas uma dificuldade financeira. O indivíduo que não consegue consumir também pode ser colocado à margem de uma sociedade que mede o pertencimento por sua capacidade de participar do mercado.
Bauman utiliza a ideia de “consumidores fracassados” para descrever aqueles que ficam excluídos dessa dinâmica. A expressão ajuda a dimensionar a crítica do autor a um modelo social no qual o valor das pessoas pode acabar associado àquilo que elas conseguem comprar.
Quando Bauman formulou a frase sobre as diferentes maneiras de ser feliz que passam por uma loja, o comércio eletrônico e os algoritmos de recomendação ainda não tinham alcançado a dimensão que possuem atualmente.
Hoje, porém, comprar ficou ainda mais fácil. A loja deixou de ser necessariamente um espaço físico para se tornar algo presente nos celulares e disponível durante praticamente todo o dia.
O consumo pode acontecer em poucos cliques, sem que seja necessário sair de casa. Ao mesmo tempo, sistemas digitais conseguem identificar interesses e apresentar constantemente novos produtos, serviços e experiências.
Por isso, a reflexão de Bauman permanece atual: a questão não está apenas no ato de comprar, mas na forma como a sociedade constrói a ideia de que sempre existe algo novo capaz de nos tornar mais felizes.
Zygmunt Bauman nasceu em 19 de novembro de 1925, em Poznań, na Polônia, em uma família judia não praticante. Com a invasão nazista em 1939, sua família precisou fugir para a União Soviética. Ainda jovem, Bauman se alistou no exército polonês controlado pelos soviéticos e participou da Segunda Guerra Mundial.
Após retornar ao país natal, estudou Sociologia e Filosofia na Universidade de Varsóvia, onde também passou a lecionar e iniciou a publicação de seus primeiros ensaios.
Em 1968, uma campanha antissemita promovida pelo regime comunista polonês fez com que Bauman perdesse sua posição acadêmica e fosse novamente obrigado a deixar o país. Depois de passagens por Israel e pelo Canadá, estabeleceu-se na Inglaterra em 1971.
Bauman assumiu a chefia do departamento de Sociologia da Universidade de Leeds, cidade onde viveu até o fim da vida. Ao longo de sua carreira, publicou mais de 50 livros e se tornou um dos principais pensadores da sociedade contemporânea.
Entre suas obras mais conhecidas estão Modernidade Líquida (2000), Amor Líquido (2003), Vidas Desperdiçadas (2004) e Vida para Consumo (2007).
Seu trabalho recebeu reconhecimento internacional e, em 2010, o filósofo foi vencedor do Prêmio Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades. Zygmunt Bauman morreu em 9 de janeiro de 2017, aos 91 anos, em sua casa, em Leeds.