Frase do dia do filósofo Byung-Chul Han: 'Enquanto nos movemos dentro do esquema de estímulo e reação, estaremos condenados apenas a sobreviver'
Publicado em 3 de junho de 2026 às 10:03
Por Clara Espíndola | Colaboradora | TV, beleza e famosos
Viciada em novela desde criança, Clara é apaixonada por beleza, criada no teatro e troca qualquer programa por uma boa noite de fofoca.
O filósofo coreano vem dizendo há anos o que muitos de nós sentimos: que a produtividade extrema está nos esvaziando. E a ciência lhe dá razão
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Me levantei às 6 da manhã e comecei a responder e-mails e a escrever. Fui à academia, preparei a comida e depois continuei trabalhando. Fui às minhas aulas de escultura e depois marquei de tomar algo com uma amiga. Enquanto jantava algo rápido, assisti a uma série sem deixar de olhar vídeos no celular. 

Olho minha agenda de amanhã. Reviso o que farei e me planejo. Deito na cama e continuo vendo vídeos e, embora esteja exausta, há algo que me impede de parar. Eu deveria arrumar a cozinha. E deveria ter colocado uma máquina de lavar para funcionar. 

Uma voz na minha cabeça que parece me repetir que eu não deveria estar deitada, mas fazendo alguma coisa, que não fui suficientemente produtiva.

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Essa voz é o que o filósofo Byung-Chul Han chama de sociedade do desempenho. Em seu livro “A Sociedade do Cansaço", o filósofo reflete sobre como chegamos a um ponto em que o problema não é que vivamos em um sistema que nos explora, mas que nós mesmas o fazemos. 

Impomos a nós mesmas a obrigação de ser produtivas e a auto exploração se torna uma virtude. A contemplação, por outro lado, parece um ato de fraqueza e, por isso, quando paramos, nos sentimos culpadas. 

Como ele analisa em Vida Contemplativa: Elogio da Inatividade, "estamos perdendo nossa capacidade de não fazer nada. Nossa existência está completamente absorvida pela atividade e, portanto, completamente explorada."

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Já não distinguimos entre trabalho e vida porque as férias precisam ser "experiências" e o descanso precisa ser "produtivo". Como aponta Han, "prolongamos a obrigação de desempenho e otimização até as horas de sono. É possível que o ser humano se livre no futuro tanto do dormir quanto do sonho, já que eles não lhe parecerão eficientes".

Por isso, para Han, "ficar em casa é a forma mais lúcida de resistência. O silêncio ali é o único lugar onde você ainda pode se escutar". É a resistência mais eficaz contra um sistema que está quebrado e que nos quebra. 

Pode parecer um paradoxo que algo tão passivo quanto deitar no sofá seja rebelde, mas se recusar a estar sempre disponível é um ato de rebeldia. Não otimizar seu domingo. 

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Não transformar seu tempo livre em tempo produtivo disfarçado de bem-estar. Ficar em casa se torna um ato antissistema e nos aproxima de nos tornarmos uma sociedade que simplesmente existe e não tem medo de não fazer nada.

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Han diz que "o calar dá profundidade à fala. Sem silêncio não há música, mas apenas ruído e alvoroço. Só o silêncio nos torna capazes de dizer algo inaudito", e é nesse silêncio que podemos nos transformar em resistência. 

Erling Kagge chama o silêncio de “o novo luxo”, já que vivemos em um mundo dominado pelo ruído e pela atividade constante. Mas as evidências científicas afirmam que duas horas de silêncio estão associadas à geração de novas células no hipocampo, a região cerebral ligada à memória e à regulação emocional. 

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Além disso, o silêncio pode atuar sobre nossa ansiedade e estresse e, se o praticamos sozinhos de forma voluntária, aumenta a sensação de autodeterminação. A filosofia e a ciência chegam ao mesmo lugar: precisamos do silêncio.

O capitalismo contemporâneo, como aponta Han, não lida bem com esse não fazer nada. Uma pessoa que não responde imediatamente e que não produz não pode ser monetizada. O silêncio, nesse sentido, é um pequeno ato de desobediência. 

E não se trata de fazer uma mudança radical de vida. Podemos simplesmente hackear o sistema e tomar café da manhã sem o celular. Caminhar em silêncio, sem ouvir música. Deixar que o tédio apareça. Permitir que uma tarde de sábado seja, simplesmente, uma tarde.

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Essa contemplação é o que nos torna humanos e, sem essa pausa, a vida se transforma em um ato reflexo. "Sem um momento de hesitação ou de interrupção, a ação se reduz a uma ação e reação cegas. 

Enquanto nos movemos seguindo o esquema de estímulo e reação, problema e solução, propósito e ação, estamos destinados apenas a sobreviver", escreveu. Você não precisa meditar, apenas estar. Comece não fazendo nada durante cinco minutos e permanecendo em silêncio. Han diz que nesse silêncio você ainda pode se escutar, e a ciência diz que seu cérebro precisa disso. E você, no fundo, já sabia disso.

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