O filósofo Byung-Chul Han afirma que a humanidade moderna desenvolveu uma espécie de fobia da dor, impulsionada pela obrigação de ser feliz. O excesso de positividade que nos cerca e a exigência de estarmos sempre felizes nos forçam, de certa forma, a negar a dor. Isso nos entorpece e nos esvazia.
Em "A Sociedade Paliativa", ele fala desse caminho hedonista que nós, como sociedade, começamos a trilhar. Uma cultura que nos convida a desfrutar 100% do nosso tempo e que faz com que a dor se torne "completamente sem sentido e inútil".
Ele argumenta que o imperativo neoliberal “seja feliz” não é um convite ao bem-estar, mas uma ordem para a performance emocional. Você precisa estar bem porque é assim que você produz. Sorria, porque sofrer é uma falha pessoal. Mas e se a dor e o sofrimento fossem necessários para a nossa própria felicidade?
Segundo Han, a felicidade não é a ausência de sofrimento, mas algo muito mais complexo do que uma equação de tudo ou nada. Como ele explica em seu livro, “a verdadeira felicidade só é possível em fragmentos. É precisamente a dor que impede que a felicidade se torne um mero objeto”.
Segundo Nietzsche, dor e felicidade são “dois irmãos, gêmeos, que crescem juntos ou que permanecem pequenos juntos”. Para Han, um é impossível sem o outro, já que a felicidade não é um estado permanente nem cumulativo. Ela deve ser uma experiência, não uma exigência.
É algo que aparece e desaparece, e isso não diminui o valor da felicidade; pelo contrário. Protege-a de se tornar apenas mais uma mercadoria. “A felicidade é mais do que a soma de sensações positivas que prometem maior desempenho. Ela não está sujeita à lógica da otimização. Caracteriza-se pela sua indisponibilidade”, escreve ele, acrescentando que é precisamente a dor que impede a felicidade de se tornar apenas mais um objeto de consumo.
“A dor traz a felicidade e a sustenta. [...] Toda intensidade é dolorosa. Na paixão, dor e felicidade se fundem”, afirma.
O problema é que, quando evitamos a dor, segundo Han, “a felicidade se torna trivial e se transforma em conforto apático”. Perdemos a profundidade emocional porque “aqueles que não são receptivos à dor também se fecham para a felicidade profunda”. Em outras palavras, para poder desfrutar da felicidade em todas as suas formas e essências, é necessário também vivenciar as emoções negativas que fazem parte da vida.
Sem variação emocional, não há discriminação afetiva, algo que Lisa Feldman Barrett explica no livro "A Vida Secreta do Cérebro". Além disso, psicólogos como Robert Plutchik já afirmavam na década de 1980 que as emoções básicas funcionam em pares opostos - alegria com tristeza, medo com raiva - que adquirem significado em contraste uns com os outros.
Evitar experiências internas desagradáveis apenas reduz nosso bem-estar e, a longo prazo, está associado a uma maior incidência de ansiedade e depressão. O bem-estar não surge da eliminação da dor, mas da sua integração em nossas vidas, sem fugir dela, o que, em última análise, aumenta nosso bem-estar psicológico.
A felicidade não é uma obrigação, nem uma medida de sucesso. Ela não define o seu valor como pessoa, nem é algo que você possa mensurar. E o mais curioso é que, quando você entende isso, fica mais fácil sentir essa felicidade.
Quando você para de buscá-la. Quando você para de pensar nela. E, acima de tudo, quando você para de evitar o sofrimento a todo custo. Não é que a felicidade seja impossível, é que ela é frágil. E é justamente nessa fragilidade que reside o seu valor.
Han afirma que “somente estando sempre aberto à dor, seja qual for sua origem e até suas profundezas, você poderá estar aberto às formas mais delicadas e sublimes de felicidade”. Sigamos seu conselho.