Immanuel Kant, filósofo alemão: 'A felicidade, mais do que um desejo, uma alegria ou uma escolha, é um dever'
Publicado em 20 de julho de 2026 às 17:06
Por Paula Alves | Colaboradora
Jornalista apaixonada por cinema, streaming e entretenimento. Sempre em busca de boas histórias para contar.
Segundo sua filosofia, ser uma boa pessoa é indispensável para alcançar a verdadeira felicidade
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Dizem que os vizinhos de Immanuel Kant acertavam seus relógios quando o viam sair para sua caminhada diária, porque ele sempre fazia o percurso exatamente no mesmo horário. Sua pontualidade beirava a obsessão, e esse hábito também refletia sua filosofia, especialmente sua visão sobre a moralidade e a felicidade.

“A felicidade, mais do que um desejo, uma alegria ou uma escolha, é um dever” é uma das paráfrases mais conhecidas de seu pensamento — e faz mais sentido do que pode parecer à primeira vista.

Segundo Kant, desejar ser feliz é algo natural e compartilhado por todas as pessoas. Em "Crítica da Razão Prática", o filósofo afirma que “todo ser racional tem a felicidade como objeto necessário de seu desejo”. 

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Em outras palavras, buscamos a felicidade da mesma forma que um bebê segura o dedo de quem o coloca em sua mão: trata-se de um reflexo humano.

E, embora a felicidade tenha um significado diferente para cada indivíduo — Kant sustenta que ela é um ideal “não da razão, mas da imaginação” —, continua sendo um objetivo comum a todos, independentemente do contexto em que vivemos.

Não existe felicidade verdadeira sem ser uma boa pessoa

Para Kant, porém, ser feliz sem ser uma boa pessoa era algo inconcebível. 

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Embora tanto pessoas boas quanto más busquem a felicidade, o filósofo defendia que a felicidade verdadeira não pode existir sem moralidade, isto é, sem agir corretamente. E, para agir corretamente, precisamos fazer o que é moralmente justo simplesmente porque é o certo a fazer.

Simplificando bastante seu pensamento, Kant sustenta que devemos cumprir nosso dever não porque isso nos agrade ou nos traga algum benefício, mas porque é a atitude correta. É justamente assim que nos tornamos pessoas verdadeiramente boas e, consequentemente, alcançamos a felicidade. 

Com um exemplo, essa ideia fica muito mais fácil de entender.

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Por que a intenção importa para Kant

Imagine que uma amiga está passando por um momento muito difícil. Ela liga para você, e você fica profundamente comovida ao saber do que está acontecendo. Então decide ajudá-la.

Ao fazer isso, sente-se melhor consigo mesma porque ficou com pena dela. Guarde esse detalhe: você a ajudou porque sentiu pena. Para Kant, isso ainda não é, propriamente, ser uma boa pessoa, porque sua ajuda também lhe trouxe um benefício: fez você se sentir bem.

Agora imagine outra situação. Sua amiga continua passando por um momento difícil e liga para você. Só que, desta vez, você está completamente exausta e não tem vontade de fazer nada além de ficar deitada olhando para o teto. Ainda assim, atende a ligação e oferece ajuda, apesar do cansaço, simplesmente porque sabe que é a coisa certa a fazer.

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Você faz o que é correto porque é seu dever, e não porque isso fará você se sentir melhor. Para Kant, é isso que significa ser uma boa pessoa. Mas atenção: ainda falta um terceiro elemento para alcançar a felicidade: o próprio bem-estar.

O bem-estar pessoal é indispensável para a felicidade

Kant defendia que, quando você não cuida de si mesma, acaba se tornando uma pessoa pior para os outros, porque tende a ficar mais egoísta, mais irritadiça e menos capaz de fazer o bem.

Imagine uma situação hipotética: você acabou de passar por um término de relacionamento, está completamente arrasada e chora todos os dias. Há meses, tudo o que consegue fazer é ficar na cama assistindo a filmes românticos na Netflix e lembrando de como era sua vida antes de tudo desmoronar.

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Você está emocionalmente devastada. Faz tempo que não se cuida, não dorme direito, não se alimenta adequadamente e quase não mantém contato com outras pessoas. Está apenas sobrevivendo.

Nessas circunstâncias, você acha que conseguiria ajudar alguém? Muito provavelmente, a resposta seria não. E, para Kant, é justamente aí que está a questão: você não pode negligenciar o próprio bem-estar se deseja ser uma boa pessoa. E precisa ser uma boa pessoa para alcançar a felicidade, porque, em sua filosofia, virtude e felicidade caminham lado a lado.

O autocuidado também é um dever moral

Isso não significa que você não tenha o direito de passar por momentos difíceis ou que precise viver sob a ditadura do positivismo. Como afirmava Byung-Chul Han, precisamos da dor para experimentar a felicidade de forma plena.

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Tampouco significa que devemos ser positivas o tempo todo ou que somos obrigadas a nos sentir felizes emocionalmente em todos os momentos.

A mensagem é outra: cuidar de si mesma e buscar o próprio bem-estar é necessário porque precisamos estar bem para tratar bem os outros.

Hoje chamamos isso de autocuidado, mas, no século XVIII, Kant já defendia que é preciso cuidar de si para poder cuidar dos outros. Em outras palavras, temos o dever moral de não nos abandonarmos, justamente para sermos boas pessoas.

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Voltando à frase do início — “A felicidade, mais do que um desejo, uma alegria ou uma escolha, é um dever” —, fica mais fácil entender seu significado. 

Para Kant, a felicidade não é algo que simplesmente acontece; é algo que temos a responsabilidade de construir para que possamos agir moralmente e nos tornar pessoas verdadeiramente boas.

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