A morte de Glória Menezes, aos 91 anos, encerra a trajetória de uma das grandes damas da dramaturgia brasileira, mas também reacende a lembrança de uma das histórias de amor mais marcantes da televisão. A atriz morreu nesta terça-feira (18), no Rio de Janeiro, data que coincidiu com a despedida da colega de profissão Laura Cardoso, aos 98 anos. A informação foi confirmada pela família à Folha de S.Paulo, que noticiou o falecimento. Segundo as informações divulgadas, Glória morreu em casa, e a causa da morte ainda não foi informada.
Ao longo de mais de seis décadas de carreira, a atriz participou de cerca de 40 produções televisivas, além de trabalhos no teatro e no cinema. Entre tantos personagens e sucessos, sua trajetória pessoal também ficou marcada pela união com Tarcísio Meira, com quem construiu uma família e uma parceria profissional que atravessou gerações.
A história de amor começou em 1961, quando os dois ainda estavam no início da carreira e se conheceram no teatro. Pouco depois, foram convidados para trabalhar juntos no teleteatro Uma Pires Camargo, da antiga TV Tupi.
A aproximação rapidamente se transformou em romance. Glória Menezes e Tarcísio Meira se casaram em 1962 e, no ano seguinte, protagonizaram juntos uma produção que entraria para a história da televisão brasileira.
Em entrevista ao O Globo, em 2015, Tarcísio Meira relembrou o momento em que viu a futura mulher pela primeira vez: "Estava ensaiando a peça As feiticeiras de Salém, dirigida por Antunes Filho, e de repente passou aquela coisinha linda. Eu falei: 'O que é isso?'".
O ator também contou que, quando Glória lançou o filme O Pagador de Promessas em Cannes, enviou flores e um cartão com a mensagem: "'volte, volte, volte'".
Foi em 1963, na extinta TV Excelsior, que os dois protagonizaram 2-5499 Ocupado, considerada a primeira novela diária exibida pela televisão brasileira. A produção tinha uma história de amor pouco convencional para a época.
A trama acompanhava Emily, uma presidiária, e Larry, o homem que atende ao telefone quando ela liga por engano para o número dele. Sem conhecer a mulher pessoalmente e sabendo apenas de sua voz, ele acaba se apaixonando. O detalhe é que Larry não sabia que Emily estava presa.
A novela foi anunciada com o slogan "a estranha história do impossível acontecendo" e tinha uma estrutura bastante diferente das produções atuais. Segundo informações do portal Aventura na História, foram 42 capítulos, com aproximadamente 20 minutos de duração e, em geral, apenas duas cenas por episódio.
Curiosamente, não. 2-5499 Ocupado começou sendo exibida somente às segundas, quartas e sextas-feiras. Depois, passou a ser diária.
A produção também tinha apenas 12 personagens, em uma estrutura muito mais enxuta que a das novelas atuais. O próprio Tarcísio Meira explicou posteriormente o motivo dessa experiência: "Era uma novela curta para que se tentasse fazer alguma coisa e se visse a reação do público".
A história não era originalmente brasileira. A produção foi adaptada da novela argentina 0597 Da Ocupado, escrita por Alberto Migré. A versão brasileira ficou sob responsabilidade de Tito di Miglio, que já havia vivido na Argentina.
Outro detalhe curioso envolvendo a produção foi o próprio telefone que dava nome à novela. Segundo as informações fornecidas pelo portal Aventura na História, existia no Brasil uma pessoa cujo número era justamente 2-5499. O dono da linha teria precisado trocar o telefone devido à quantidade de ligações recebidas durante a exibição da trama.
Depois da primeira novela, a parceria profissional dos dois continuou. Eles permaneceram na TV Excelsior por alguns anos e participaram de outras nove novelas da emissora. Em 1967, chegaram juntos à TV Globo e voltaram a atuar lado a lado em Sangue e Areia.
Na vida pessoal, a família também cresceu. Em 1964, nasceu Tarcísio Filho, único filho do casal, que posteriormente também seguiu carreira como ator.
Ao longo das décadas, Glória Menezes e Tarcísio Meira voltaram a formar casais em diferentes produções. Entre os trabalhos conjuntos estão Irmãos Coragem (1970), O Homem que Deve Morrer (1971), Espelho Mágico (1977), Torre de Babel (1998) e A Favorita (2008).
Um dos encontros mais lembrados pelo público aconteceu em Beijo do Vampiro (2002). Na novela, Tarcísio interpretou o vampiro Bóris Vladescu, enquanto Glória viveu a esotérica Zoroasta.
Apesar de a dupla ter se tornado querida pelo público, Glória Menezes revelou que trabalhar constantemente ao lado do marido não era necessariamente a melhor opção para os dois.
Em entrevista ao Altas Horas, em março de 2021, a atriz explicou: “Ele tinha as mocinhas dele e eu tinha meus galãs. Colocavam ele para trabalhar com outras atrizes e eu com outros atores. Era bom. Decorar em casa, trabalhar em casa, fazer os personagens juntos não era muito bom. Eu ia para um canto e ele para outro. Eu tinha um jeito de trabalhar os meus personagens e ele outro“.
Ainda assim, a parceria permaneceu como uma das mais emblemáticas da televisão brasileira. Fora das telas, os dois demonstravam publicamente o carinho construído ao longo dos anos.
Apesar de sua importância histórica, a versão original de 2-5499 Ocupado acabou se perdendo. Isso aconteceu por causa de uma prática comum na televisão da época: as fitas eram reutilizadas, com novos capítulos gravados por cima dos antigos. A história, porém, ganhou uma nova versão décadas depois. Em 1999, a Rede Record produziu um remake chamado Louca Paixão.
E existe ainda uma curiosidade sobre a avaliação feita pelo próprio protagonista. Anos depois, durante uma entrevista para os documentários Fazendo Novela, Tarcísio Meira foi questionado sobre a qualidade de 2-5499 Ocupado e foi direto ao relembrar a produção: “Era uma novela muito chata. Muito ruim”.
Mesmo com a avaliação bem-humorada do ator, a importância daquela novela permanece. Foi nela que Glória Menezes e Tarcísio Meira dividiram o protagonismo de uma produção que entrou para a história da televisão brasileira. Fora das telas, o encontro iniciado poucos anos antes se transformou em uma união de décadas, marcada por trabalho, família e uma parceria que se tornou parte da memória afetiva do público.