Meu tio completou 70 anos no mês passado. Os seus filhos deram uma festa. Tinha balões, o bolo e um brinde, onde um dos meus primos falou algo bem emocionante a respeito dele ter sido um homem que sempre pôs a família em primeiro lugar.
O meu tio deu um sorriso e agradeceu e quando anoiteceu, me contou depois, que se sentou à mesa da cozinha e pensou: foi exatamente esse o problema. Ele deu prioridade sempre à família. E também ao trabalho. Bem como a hipoteca, a aplicação financeira visando à aposentadoria, a mensalidade da escola e também à expectativa daqueles por quem tinha respeito.
Entre tantas prioridades, meu tio acabou se esquecendo da pergunta que para ele agora é a principal que alguém pode fazer a si mesmo: o que eu realmente quero? Não aquilo que ele deveria desejar. E nem o que é razoável que se queira.
Nem o que uma pessoa boa, um pai com responsabilidade ou um marido de confiança deveria desejar. Mas sim o que ele, intimamente, quer para a própria vida? Ele gastou 40 anos da sua vida sem lhe perguntar isso.
O motivo nem foi por conta das tarefas do dia a dia. E sim porque ele ficou aguardando que alguém chegasse para ele e falasse que, afinal, não tinha nenhum problema em se questionar.
Seguindo a Teoria da Autodeterminação encontramos um conceito conhecido por regulação introjetada. Ou seja, há uma motivação que lhe leva a fazer determinadas coisas não porque valoriza isso e sim porque elas se tornaram seus desejos de tanto internalizar expectativas externas de uma maneira tão determinada.
A pessoa atua seja por culpa, necessidade de ser aprovada ou por vergonha, e não nota a pressão de dentro de si mesmo por ela ser tão pouco sentida. A pessoa pensa que é de fato quem é. E fica com o pensamento que se quisesse algo oposto disso seria como agisse com egoísmo, ingratidão ou de forma impraticável.
Meu tio passou por essa regulação introjetada ao longo de aproximadamente 40 anos. Concordou com um emprego seguro porque essa era uma atitude de homens com responsabilidade. E permaneceu nele porque havia seus dependentes. Abandonou os interesses que não eram nem ligados à família e nem à profissão.
E dizia para si mesmo que isso era prova de maturidade, uma vez que teria tempo e que fazer suas próprias vontades seria um luxo e que poderia desfrutar de tal luxo quando chegassem ao fim as o que ele chamou de "obrigações reais" chegassem ao fim. Só que elas nunca terminavam. Apenas ganhavam um novo formato.
O que era mensalidade da escola virou da universidade, que passou a ser os custos do casamento, e depois se havia economizado o suficiente para a aposentadoria. E com isso sempre ele usava um argumento para adiar. E fazia uso responsável tanto do tempo quanto da energia.
Por muitos anos, o psicólogo Thomas Gilovich se debruçou a respeito do arrependimento das pessoas. A pesquisa foi feita usando desde levantamentos telefônicos a questionários passando por entrevistas pessoalmente com vários grupos e algo comum foi levantado: não demora muito para que as pessoas tenham arrependimento do que fizeram.
E em longo prazo, acabam se arrependendo de não terem tomado determinada atitude. Ao pensarem nas próprias vidas, as pessoas apresentam um arrependimento maior e mais prolongado quando se lembram dos erros em relação a uma atitude.
Nessa pesquisa, 74% apontaram arrependimentos daquilo que não fizeram e esse levantamento inclui as pessoas de maior idade, os que moram em casas de repouso e os professores eméritos entre 70 e 80 anos. Mas não os erros que cometeram. Tampouco os riscos corridos mal.
Mas sim os caminhos que deixaram de seguir. Os interesses que não mantiveram. E as versões de si que jamais deixaram de viver. Eu vi isso transparecer no meu tio. Ele não se arrependeu de uma certa chance que perdeu. Não se trata de um comércio que não foi aberto, uma mudança não realizada para o exterior ou ter deixado de aprender a pintar.
O arrependimento dele é bem mais estrutural. É que meu tio ficou 40 anos com o seletor do desejo travado e ao se dar conta já tinha deixado de lado o hábito de saber o que queria para si.
Ele só foi entender aos 70 anos, aquilo que gostaria que uma pessoa tivesse lhe dito 40 anos antes: ninguém vai chegar para você e lhe dar permissão para desejar coisas a si mesmo. Seus pais não vão, nem seu parceiro/parceira, seu chefe, nem ninguém ao seu redor.
O mundo está pronto para aceitar essa sua submissão. Ele vai usar de todo tempo que você oferecer sem te dizer: "Pare, agora é hora de fazer algo que para você tenha importância". Você precisa se permitir e para pessoas como meu tio, criadas achando que abnegação é a qualidade maior e que se deve administrar ao invés de por em prática um desejo, entregar a si mesmo tal permissão sugere uma quebra de contrato assinado antes de atingir a idade para fazer a leitura das letras bem pequeninhas.
Levantamentos envolvendo bem-estar e autodeterminação indicam de forma contínua que não se trata de um luxo a autonomia ou de ser o responsável pelos próprios comportamentos. Trata-se de uma necessidade psicológica fundamental.
E quanto isso se torna algo que gere insatisfação de maneira crônica, o indivíduo se sente mais do que frustrado. Elas reduzem o bem-estar, aumentam o esgotamento e diminuem o engajamento, sem que se leve em conta os níveis de estabilidade e sucesso.
Caso se construa uma vida direcionada totalmente para a expectativa de vida do outro, essa pessoa pode ter a sensação de vazio, independente do emprego, família e casa.
Falaria para ele não trabalhar tanto. E para viajar com mais frequência. Esses dois são os arrependimentos que espera-se que você desenvolva aos 70 anos, por serem os mais superficiais. Eu diria ao meu tio: desejar algo para si não quer dizer que você seja egoísta. É algo necessário.
E achar que você precisa pedir a alguém que lhe deixe realizar seus desejos é mentira mais cara que não deve ser aceita, porque se acumulará com o tempo. A cada ano adiado, o músculo que sabe do seu desejo se atrofia mais, até que você enfim tem tempo e liberdade, mas nota que esqueceu de que forma usá-los.
Diria também que priorizar os outros é algo positivo, porém ao se fazer isso por 40 anos seguidos acaba por construir uma vida que a longo prazo vai se arrepender: uma vida de inação frente às coisas que para você tinham importância e foram disfarçadas de sacrifício. Diria que, aos 70 anos, ninguém vai lembrar se você sempre se mostrou solícito.
Eles vão lembrar se você vivia. E se tinha algo em seu olhar quando falava a respeito de seus dias. Se parecia alguém que fazia algo que optou por fazer ou alguém que apenas suportava algo com o qual havia concordado. Nunca pare de esperar. Essa permissão não chegará.
Nem nunca vai vir. Você é a única pessoa que pode dar autorização na sua vida, e cada um esperado é um ano não recuperado.
Meu tio sabe disso agora. E gostaria de ter descoberto antes. Porém a coisa mais útil ao se chegar aos 70 anos não é a sabedoria. E sim a clareza. E me parece agora com clareza, o que teria me deixado com medo aos 30, é que aprendi tarde demais é que não se trata de para onde tinha que ter ido ou o que poderia ter feito.
É que passei quatro décadas em pé frente a uma porta que nunca fora trancada, aguardando que alguém abrisse-a para mim.