'Quem Ama Cuida' chega no capítulo 50, nesta quarta-feira, 15, com um feito enorme nos dias de hoje: fazer com que o público comente positivamente sobre uma novela. Será que é o efeito Walcyr Carrasco que costuma elevar a audiência de suas histórias quando a TV está em declínio?
Pois bem, a trama chegou com a missão de elevar a faixa nobre e já entregou reviravoltas suficientes para deixar o telespectador sem fôlego.
Ao mesmo tempo, é possível perceber que o folhetim precisa de ajustes importantes para se manter vivo até janeiro, quando será substituído pela continuação de 'Avenida Brasil'. Vamos aos sucessos e fracassos de 'Quem Ama Cuida'!
Se a novela tem um porto seguro, ele atende pelo nome de Pilar. Interpretada magistralmente por Isabel Teixeira, a grande vilã da trama é magnética.
Além de ditar moda com seus looks marcantes e o icônico uso de animal print, Pilar consegue transitar entre a frieza de suas armações e a elegância de uma grande antagonista.
É muito possível que Pilar entre na lista das melhores vilãs das novelas se mantiver essa pegada entre a maldade e o humor debochado.
Não é todo dia que uma novela consegue reunir um elenco cheio de carisma, talento e beleza em um mesmo projeto.
A escalação feminina é um verdadeiro primor, destacando nomes gigantescos como Mariana Ximenes, Flávia Alessandra, Nathalia Dill, Letícia Colin e Agatha Moreira. Ver essas forças da nossa teledramaturgia dividindo a tela é um acontecimento por si só.
Mesmo com personagens que parecem pequenos diante do núcleo central, algumas atrizes estão brilhando intensamente e entregando atuações impecáveis.
É o caso de Agatha Moreira, que dá vida à envolvente Ingrid, e de Nathalia Dill, excelente na pele da misteriosa Francesca.
A saga de Adriana (Letícia Colin), que busca reconstruir sua vida e provar sua inocência após sair da prisão, ganhou o público.
A revelação de que ela reencontrou Pedro (Chay Suede) e confessou que ainda o ama traz o melodrama rasgado de volta à faixa das nove. A química entre Letícia e Chay, já consolidada em 'Segundo Sol' (2018), é inegável na atual novela das nove.
O reencontro e a cumplicidade de Adriana, Nancy (Jeniffer Nascimento) e Lyris (Pri Helena) trazem uma camada social rica e genuína para a novela.
A dinâmica das aliadas de cela atuando como a grande conselheira e porto seguro de Adriana traz uma quebra bem-vinda em meio a tantas intrigas familiares das joalherias e mansões.
O núcleo de comédia da novela tem funcionado muito bem, trazendo aquela leveza clássica que Walcyr Carrasco tanto gosta.
O grande destaque positivo do humor fica por conta dos empregados da mansão sendo constantemente explorados por Pilar, gerando situações divertidas que ajudam a aliviar a forte carga dramática do folhetim.
Toda novela precisa de um bom mistério, mas a investigação em torno do assassinato de Arthur (Antonio Fagundes) tem patinado. Em vez de avançar com novas pistas reais, o roteiro deixa o suspense de lado.
Embora Tatá Werneck seja uma força da natureza e tenha trabalhado muito bem na primeira fase — gerando bastante burburinho com a obsessão de sua personagem por homens —, a verdade é que a filha de Pilar parece um pouco perdida na novela atualmente.
A questão aqui não é o humor afiado e espontâneo da atriz, que pode causar estranheza, mas a falta de um destino para a personagem. É como se os autores ainda não soubessem o que fazer com ela.
Por mais que o telespectador entenda que Adriana precisou ir atrás das grades para que tenhamos raiva dos vilões, os autores pecaram a mão ao criarem armações bobas e sem lógica no tribunal.
Como acreditar no depoimento de Tom (Allan Souza Lima), um homem com histórico escancarado de violência moral contra a parceira, Elenice (Mariana Sena)?
As mentiras de Pilar foram tão grosseiras que nem uma criança acreditaria, quem dirá um juiz de verdade. Faltou verossimilhança para não subestimar a inteligência do público.
Com a justificativa de acelerar o ritmo e focar na trama principal, a Globo acabou pausando ou limando de vez os depoimentos de pessoas reais ao final de cada capítulo.
Isso foi um erro triste. Essa técnica era um primor e resgatava uma herança histórica da TV, como víamos em 'Páginas da Vida', de Manoel Carlos, fazendo as pessoas refletirem sobre dilemas reais fora da ficção. Manter o formato, mesmo que apenas uma vez por semana, enriqueceria demais a experiência.
Quem mora ou conhece a capital paulista percebeu uma falha grosseira de edição logo na primeira semana. A novela anunciou que os personagens estavam na estação Trianon-Masp (que é totalmente subterrânea), enquanto a tela exibia belas imagens da estação Sumaré (que é elevada e aberta).
Esse tipo de erro de locação quebra a imersão de quem acompanha a história e conhece a geografia da cidade.
De todo modo, 'Quem Ama Cuida' tem um saldo altamente positivo, apoiado na força de suas protagonistas e em um enredo que sabe prender. É uma novela e tanto que necessita de algumas lapidações.