O cemitério voltou a aparecer com tudo em "Quem Ama Cuida". Nesta quinta-feira (3), Diná (Rosi Campos) irá até o túmulo de Francesca (Nathalia Dill), antiga funcionária da mansão de Arthur (Antonio Fagundes), para pedir perdão pela maneira como a tratou em vida. A governanta colocará flores sobre a sepultura e confessará seu arrependimento, sem perceber que Otoniel (Tony Ramos) estará observando a cena de longe. Eita!
A sequência chama atenção porque, na vida real, visitar o túmulo de alguém querido, falar com essa pessoa ou realizar outros rituais relacionados à morte não é necessariamente interpretado pela psicologia como algo estranho. Um artigo publicado em abril de 2026 pelo site especializado Psychology Today explica que essas atitudes podem fazer parte da maneira como algumas pessoas elaboram a perda.
No artigo "Getting Closer to the Bones", publicado na seção dedicada ao luto, Diane N. Solomon, Ph.D., enfermeira profissional especializada em psiquiatria e professora adjunta da OHSU, aborda justamente a relação que pode continuar existindo entre uma pessoa enlutada e alguém que morreu.
Solomon explica que a compreensão sobre o luto mudou ao longo do tempo. Segundo ela, experiências como sentir a presença de alguém que morreu ou ouvir sua voz, especialmente após a perda, já foram interpretadas automaticamente como alucinações.
Atualmente, existe o conceito de "continuing bonds", traduzido como "vínculos contínuos", para descrever a manutenção de uma relação com a pessoa falecida. No artigo, Solomon afirma que esse vínculo pode ser uma relação normal e saudável mesmo muito tempo depois da morte.
A ideia ajuda a entender por que o fim da vida física não significa necessariamente o desaparecimento imediato de uma relação afetiva. A pessoa que ficou pode continuar conversando mentalmente com quem morreu, lembrar de seus ensinamentos, guardar objetos, ouvir músicas associadas a ela ou criar novos rituais para preservar sua memória.
O próprio título do artigo do Psychology Today coloca a questão de maneira direta: visitar um túmulo - ou realizar outros rituais depois da morte - pode ajudar quem está de luto? Solomon cita a visita ao cemitério entre os exemplos de práticas realizadas por pessoas enlutadas, ao lado de acender velas, escrever cartas, ouvir músicas de que o falecido gostava e marcar aniversários ou a data da morte.
A autora destaca que não existe uma única maneira de viver o luto. Os rituais podem ser individuais ou coletivos e variam de acordo com cada pessoa e com a relação que ela tinha com quem morreu. Entre os exemplos estão ainda visitar o local onde as cinzas foram espalhadas, vestir uma peça que pertencia ao falecido, assistir a filmes de que ele gostava ou retornar a lugares que eram importantes para aquela pessoa.
Ou seja, o gesto de ir ao cemitério não precisa ter apenas o significado de "se despedir". Para algumas pessoas, aquele espaço pode representar uma maneira concreta de preservar uma relação afetiva que continua existindo internamente.
É justamente nesse ponto que o conceito de vínculos contínuos ganha força. No artigo, Solomon explica que esses vínculos representam uma nova relação, internalizada, com a pessoa querida que morreu. Ela também afirma que os rituais podem ajudar, com o passar do tempo, a compreender uma realidade dolorosa: alguém que teve grande importância na vida deixou de existir fisicamente.
Isso não significa, necessariamente, acreditar que o morto continua vivo fisicamente. Trata-se de reconhecer que uma relação afetiva pode ganhar outra forma depois da morte.
Por isso, atitudes como falar em voz alta diante de uma fotografia, contar uma novidade para alguém que já morreu, escrever uma carta que nunca será enviada ou conversar mentalmente com essa pessoa podem ser compreendidas dentro desse contexto de manutenção do vínculo.
Para fundamentar o artigo, Solomon cita duas pesquisas publicadas na área de estudos sobre morte e luto. Uma delas, de 2021, investigou a função de funerais e rituais nas reações ao luto. A outra, publicada em 2024 na revista Death Studies, fez uma revisão sistemática sobre o impacto dos chamados continuing bonds após uma perda.
Ao resumir os estudos, a autora informa que, em uma amostra holandesa com mais de 550 participantes, 85% haviam participado de rituais individuais nos três anos seguintes à morte de uma pessoa querida, incluindo práticas como acender uma vela em casa e visitar o túmulo. Mais de metade também havia participado de rituais coletivos, como cerimônias memoriais ou encontros para compartilhar histórias sobre a pessoa que morreu.
Segundo o artigo, esses rituais podem facilitar o enfrentamento, a adaptação e a recuperação diante da perda. Ao mesmo tempo, Solomon faz uma ressalva: quando o sofrimento se torna persistente e interfere significativamente na vida da pessoa muito tempo depois da morte, pode haver um quadro de luto prolongado, que pode ser tratado.