Eu nunca imaginei que, numa quarta-feira qualquer, teria que contar ao mundo sobre a conexão entre Gandalf e o Papa.
Como fã de O Senhor dos Anéis, estou adorando ter que fazer isso! Mas, antes, vou explicar o contexto. No dia 25 de maio de 2026, o Papa Leão XIV lançou a Magnifica Humanitas, sua primeira encíclica. Uma encíclica é uma carta escrita pelo próprio pontífice e dirigida a todos os fiéis católicos do mundo. 200 páginas. 42.000 palavras.
No texto, o Papa menciona que “surge uma tentação sutil: pensar que os problemas são grandes demais e nós somos pequenos demais e que, portanto, nossas decisões não mudam nada”. Até aqui, tudo parece normal. A reviravolta surpreendente ocorre quando lemos o ponto 213, que é a resposta àquela desesperança provocada pela Inteligência Artificial (IA) e pela tecnologia sobre a qual ele reflete:
213. Um escritor católico do século XX, John Ronald Reuel Tolkien, por meio de um dos protagonistas de um de seus romances, descreveu assim a nossa responsabilidade: 'Não nos cabe dominar todas as marés do mundo, mas fazer o que está ao nosso alcance pelo bem dos dias que nos coube viver, erradicando o mal nos campos que conhecemos e deixando para aqueles que virão depois uma terra limpa para o cultivo'.
Sim, ele acabou de citar J.R.R. Tolkien. O que você leu foi dito por Gandalf em “O Retorno do Rei”. Uma das mais importantes sagas literárias de fantasia da história. O Santo Graal dos geeks do mundo. Os romances que deram vida a “uma das sagas cinematográficas mais ambiciosas, lucrativas e adoradas da história do cinema fantástico”, segundo os especialistas. Usar a fantasia para nos dar lição de moral é brilhante.
Assim como Gandalf, o Papa procura mostrar aos seus fiéis que não são os mais poderosos que sustentam a esperança, mas sim as pessoas comuns que decidem não desistir. Somos hobbits para Leão XIV.
Não é a primeira vez que um papa cita Tolkien. O Papa Francisco o citou na Missa da Meia-Noite de Natal de 2023. Mas Leão XIV o incluiu naquilo que é considerado a forma mais elevada de ensino da Igreja. De fato, o discurso de Gandalf já faz parte oficialmente da Doutrina Social da Igreja e é mais do que provável que seja citado em seminários ou apareça em trabalhos de teologia.
Também não é a primeira vez que Tolkien é associado à Igreja. O livro de Joseph Pearce, “Tolkien: Man and Myth”, já falava da devoção católica do escritor e, na carta 142 das “Cartas de Tolkien”, o próprio afirma que “O Senhor dos Anéis” é “uma obra fundamentalmente religiosa e católica”.
A encíclica do Papa contém mais de 200 referências e, além de Tolkien, cita o quadro “Guernica”, de Picasso, o filme “A Lista de Schindler”, o filósofo Viktor Frankl ou Platão, o que nos leva a pensar que ele pretende construir sua doutrina utilizando todo tipo de referências da cultura popular e conteúdos laicos, e não apenas recorrendo à Bíblia e à teologia. Além disso, vou dar mais uma volta por cima, pois Leão XIV parece querer iniciar uma Jihad Butleriana, como em “Duna”, o romance escrito em 1965.
Para entender sua relação com o romance de ficção científica, é preciso primeiro entender o que é a Jihad Butleriana, uma guerra intergaláctica contra as máquinas, descrita por Frank Herbert em “Duna”.
Essa guerra não foi apenas uma rejeição à tecnologia. Herbert não escrevia sobre tecnofobia, mas refletia que, quando delegamos as decisões morais às máquinas, perdemos o controle e a humanidade. Agora vou te contar alguns dos pontos que Leão XIV aborda nesta encíclica “sobre a custódia da pessoa humana na era da inteligência artificial” e depois me diz se é parecido ou não.
A tese inicial da encíclica é que “a humanidade, criada por Deus em toda a sua grandeza, enfrenta hoje uma escolha crucial: construir uma nova Torre de Babel ou construir a cidade na qual Deus e a humanidade habitam juntos”.
Ao longo de seus cinco capítulos, ela mantém essa mesma linha. O Papa não diz que a tecnologia é inerentemente maligna nem uma força antagônica para a humanidade, mas afirma que “ela não é neutra, porque assume o rosto daquele que a concebe, a financia, a regula, a utiliza”. Herbert defendia o mesmo: o problema não é a máquina, mas o fato de que o poder se concentra nas mãos daqueles que as controlam.
Nos romances de Herbert, a dependência das máquinas atrofiou o potencial humano. Leão XIV diz o mesmo, mas em termos teológicos. Ele afirma que a IA não pode substituir a consciência, a empatia ou a dignidade.
“As chamadas inteligências artificiais não vivem uma experiência, não possuem um corpo, não passam pela alegria e pela dor... Também não têm consciência moral: não julgam o bem e o mal, não captam o sentido último das situações nem assumem o peso das consequências”, escreveu o Papa, que assegurava que “confiar, na prática, a um algoritmo o poder de selecionar quem é digno e quem não é... significa encomendar-lhe a tarefa de redefinir os limites das possibilidades humanas”.
O mandamento butleriano em Duna, “não construirás uma máquina à semelhança da mente humana”, se encaixa perfeitamente, e Leão XIV descreve exatamente esse mesmo limite. “Na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos”.
Estou convencida de que esta breve análise te fez pensar que o Papa da Igreja Católica tem mais em comum com um romance de ficção científica com mais de sessenta anos do que parecia. E isso não é nada ruim.