A psicologia explica: as pessoas que não demonstram nenhuma emoção, mesmo diante de cenas comoventes, não são, por isso, indiferentes
Publicado em 9 de setembro de 2026 às 13:14
Por Paula Alves | Colaboradora
Jornalista apaixonada por cinema, streaming e entretenimento. Sempre em busca de boas histórias para contar.
Não derramar lágrimas diante de uma cena comovente não é sinal de frieza ou falta de empatia: cada pessoa sente, interpreta e regula suas emoções de uma maneira diferente
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Imagine que você esteja assistindo a um filme comovente. Todos ao seu redor procuram lenços, parecem abalados ou comentam a força emocional da cena. 

Você, por outro lado, permanece perfeitamente calmo. Entende que a cena é triste e pode até continuar pensando nela mais tarde, mas não sente necessidade de chorar.

É fácil supor que uma pessoa que permanece impassível diante de uma cena comovente seja fria, distante ou não tenha empatia. A psicologia, porém, sugere que a realidade é muito mais complexa.

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A experiência emocional, a expressão das emoções, a empatia e a regulação emocional estão relacionadas, mas são processos distintos. Uma pessoa pode compreender o sofrimento alheio sem manifestar uma reação emocional intensa.

As pesquisas também mostram que somos muito diferentes na maneira como sentimos, regulamos e expressamos nossas emoções.

Não chorar não significa não sentir nada

Uma das principais ideias equivocadas sobre as emoções é acreditar que aquilo que alguém demonstra externamente reflete fielmente o que sente por dentro. Isso não é necessariamente verdade.

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Uma pessoa pode sentir tristeza sem chorar. Outra pode chorar com facilidade e, pouco depois, recuperar a calma. Uma terceira pode compreender que um personagem está sofrendo sem sentir um sofrimento pessoal particularmente intenso.

O psicólogo James Gross, cujos trabalhos contribuíram amplamente para o estudo da regulação emocional, distingue a experiência emocional da maneira como os indivíduos regulam e expressam suas reações.

Seu modelo descreve diferentes etapas durante as quais uma pessoa pode influenciar sua resposta emocional, especialmente por meio da atenção, da interpretação da situação e da modulação da reação.

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Assim, duas pessoas podem assistir exatamente à mesma cena e sentir emoções muito diferentes.

Como algumas pessoas regulam suas emoções

Uma possível explicação está na reavaliação cognitiva, uma forma de regulação emocional estudada, entre outros, nos trabalhos de James Gross. 

A reavaliação consiste em modificar a maneira como uma pessoa interpreta uma situação emocionalmente estimulante.

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Em vez de se deixar absorver pela tristeza de uma cena, ela pode lembrar instintivamente que se trata de uma ficção, concentrar-se na atuação dos atores, refletir sobre como a cena foi construída ou se distanciar mentalmente do que está acontecendo.

Isso não significa necessariamente que esteja tentando suprimir deliberadamente suas emoções. Sua interpretação da situação pode simplesmente reduzir o impacto emocional provocado por ela.

Pesquisas que comparam a reavaliação cognitiva e a supressão emocional mostraram que a reavaliação pode diminuir tanto a experiência emocional quanto sua expressão visível, enquanto a supressão atua principalmente sobre a expressão externa e pode manter a ativação fisiológica relativamente elevada.

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Além disso, a regulação emocional nem sempre é consciente. Com o tempo, algumas estratégias podem se tornar habituais e ser acionadas quase automaticamente.

Uma pessoa pode ter a tendência de se concentrar nos fatos, em vez de nos próprios sentimentos, de racionalizar o que está acontecendo ou de desviar sua atenção para outra coisa. Também pode simplesmente apresentar uma tendência naturalmente menor a expressar suas emoções de maneira visível.

Isso é muito diferente de pensar conscientemente: “Eu me recuso a sentir qualquer coisa.”

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Uma mesma cena pode provocar reações muito diferentes

Isso está relacionado a uma ideia mais ampla da psicologia: a importância emocional de um acontecimento depende, em parte, da maneira como a pessoa o interpreta.

Tomemos como exemplo uma cena fictícia de morte. Um espectador pode imediatamente imaginar como seria perder alguém que ama. Outro pode se concentrar na história. Um terceiro pode prestar mais atenção à atuação. Outra pessoa ainda pode considerar a cena previsível porque já sabia o que aconteceria.

Portanto, o mesmo estímulo não provoca necessariamente a mesma reação emocional em todo mundo. 

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Uma pessoa que não chora diante de um filme pode compreender perfeitamente por que aquela cena deveria ser comovente sem sentir a mesma intensidade emocional que outro espectador.

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Empatia e expressão emocional são coisas diferentes

A ausência de lágrimas também não deve ser confundida com falta de empatia. A empatia possui diferentes dimensões, entre elas a capacidade de compreender o ponto de vista de outra pessoa e de reagir ao seu estado emocional.

Portanto, é possível compreender o sofrimento de um personagem sem sentir ou demonstrar uma emoção tão intensa quanto outra pessoa.

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As pesquisas sobre alexitimia mostram, inclusive, como as relações entre consciência emocional e empatia podem ser complexas. 

A alexitimia se refere à dificuldade de identificar e descrever as próprias emoções. No entanto, pessoas que apresentam mais traços alexitímicos não são necessariamente desprovidas de todas as formas de empatia.

Em um estudo realizado com adultos que assistiam a trechos de filmes capazes de despertar emoções, a alexitimia foi associada a determinadas diferenças no processamento das emoções e em processos relacionados à empatia.

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Isso mostra por que a experiência emocional não pode ser reduzida a uma simples oposição entre “empático” e “insensível”.

E se for alexitimia?

Em alguns casos, dificuldades persistentes para reconhecer ou descrever as próprias emoções podem estar associadas à alexitimia. Esse termo, contudo, deve ser usado com cautela.

Não chorar diante de filmes tristes não significa que uma pessoa tenha alexitimia. Trata-se de um conceito mais amplo e multidimensional, que inclui, entre outras características, dificuldades para identificar e descrever os próprios sentimentos, além de uma tendência a privilegiar um pensamento voltado para o mundo exterior.

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Um comportamento isolado, como não ficar com os olhos marejados diante de um filme, está muito longe de ser suficiente para levantar essa hipótese.

Uma pessoa pode simplesmente ter um limiar diferente de reatividade emocional, um estilo de personalidade particular ou uma maneira própria de reagir às obras de ficção.

A ficção não afeta todas as pessoas da mesma maneira

Outro fator importante é a diferença entre situações emocionais reais e fictícias. Algumas pessoas podem ficar profundamente abaladas ao saber que alguém real está sofrendo e, ao mesmo tempo, permanecer relativamente distantes diante de uma história fictícia.

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Essa diferença pode ser explicada, em parte, pelo distanciamento psicológico. O espectador sabe que os personagens na tela são fictícios, e essa consciência pode diminuir a relevância pessoal daquilo que acontece diante de seus olhos.

Para outra pessoa, ao contrário, uma obra de ficção pode desencadear fortes associações autobiográficas.

Uma cena envolvendo um familiar, a casa onde passou a infância ou um relacionamento do passado pode trazer lembranças pessoais à tona e tornar a experiência particularmente intensa.

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A cena não mudou. O que muda são as associações que cada espectador estabelece com ela.

A personalidade e a reatividade emocional também desempenham um papel

As pessoas apresentam diferenças em sua reatividade afetiva, ou seja, na intensidade e na rapidez com que reagem a estímulos emocionais.

Algumas são muito reativas emocionalmente e se comovem com facilidade diante de músicas, filmes ou experiências alheias. Outras têm um funcionamento emocional mais calmo. 

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Nenhum desses perfis corresponde automaticamente a uma personalidade mais saudável ou equilibrada.

As pesquisas sobre diferenças individuais na regulação emocional ressaltam que a eficácia de uma estratégia depende da pessoa, da situação e do objetivo pretendido. Portanto, não existe um estilo emocional ideal que seja válido para todos.

A pessoa que não chora diante de um filme trágico pode simplesmente ter um perfil emocional diferente.

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Quando o distanciamento emocional merece atenção especial?

Existe uma diferença importante entre não chorar no cinema e sentir-se emocionalmente anestesiado na vida cotidiana. Se uma pessoa raramente sente prazer, tristeza, afeto, entusiasmo ou conexão em situações que antes eram importantes para ela, trata-se de um fenômeno muito mais amplo.

Da mesma forma, uma dificuldade persistente para identificar as próprias emoções pode, em alguns casos, merecer atenção especial.

Por outro lado, uma pessoa que ri com os amigos, sente afeto por quem ama, se entusiasma com as coisas de que gosta e vivencia a tristeza em situações reais pode simplesmente ter uma tendência menor a demonstrar emoções diante de obras de ficção.

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Um comportamento isolado não é suficiente para estabelecer um diagnóstico nem para definir uma personalidade.

Por que algumas pessoas permanecem calmas diante de cenas comoventes?

Os trabalhos de James Gross mostram que as emoções podem ser reguladas em diferentes momentos do processo emocional. 

As pesquisas sobre alexitimia também indicam que a consciência emocional, a expressão das emoções e a empatia são muito mais complexas do que o comportamento externo pode dar a entender.

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Portanto, se todos estiverem procurando lenços enquanto você permanece perfeitamente calmo, isso não significa necessariamente que haja algo de errado com você.

É possível compreender a tristeza sem se deixar dominar por ela. Você pode sentir alguma coisa sem demonstrá-la. Ou talvez seu cérebro simplesmente processe histórias carregadas de emoção de uma maneira diferente.

Uma reação emocional discreta não representa necessariamente ausência de emoção. Às vezes, trata-se apenas de uma emoção sentida, expressada ou regulada de outra maneira.

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