Você se considera uma pessoa feliz? A felicidade, um dos principais pilares da saúde mental humana, ainda é uma incógnita para muitas pessoas e desperta opiniões divergentes entre filósofos e pensadores, como Zygmunt Bauman, que a atrela felicidade aos relacionamentos.
A ciência moderna demonstrou que a felicidade sustentada ao longo do tempo influencia a estrutura e o funcionamento do cérebro, especialmente nas redes ligadas à regulação emocional, à tomada de decisões e à memória. Simone de Beauvoir, em um dos estudos da felicidade, traz questionamentos pertinentes ao tema. E pra você, o que é ser feliz? Continue a leitura e descubra o que Simone fala sobre despertar a felicidade.
E a resposta é diferente dependendo de quem perguntamos! Para Harvard, por exemplo, não há felicidade sem relacionamentos. Para Aristóteles, é uma atividade racional ligada à virtude.
Para os estoicos, consiste na serenidade que nasce de viver de acordo com a razão e aceitar o que não depende de nós e, segundo o existencialismo, é uma construção ativa ligada à liberdade, à responsabilidade e à autenticidade.
Simone de Beauvoir foi uma figura chave desta última filosofia. Se parafrasearmos o pensamento de Beauvoir sobre a liberdade, a responsabilidade e a ação que se percebe nos seus livros e escritos, a filósofa e autora do famoso livro “O Segundo Sexo” afirma que “a felicidade não é um estado passivo. É uma conquista que exige lucidez, responsabilidade e compromisso com a própria liberdade”.
Antes de explicar o que Beauvoir quer dizer com essa frase, vamos pensar no contexto histórico em que ela desenvolveu o seu pensamento. Simone de Beauvoir nasceu 9 de janeiro de 1908 em Paris e estudou na Sorbonne e tinha 39 anos quando publicou “Pour une morale de l’ambiguïté”, o ensaio em que mais explora esse conceito de liberdade e a sua ligação com a felicidade.
Ela o fez num momento crucial de reconstrução intelectual após a Segunda Guerra Mundial, quando o existencialismo se propunha a confrontar a liberdade humana com a responsabilidade moral e social.
Portanto, não é de se admirar que esse texto, no qual Beauvoir discute a liberdade humana, a necessidade de se comprometer eticamente com os outros e a responsabilidade por nossas ações, tenha surgido naturalmente em sua mente.
Do ponto de vista do existencialismo de Beauvoir, a felicidade não é um estado predeterminado nem o resultado das nossas condições externas. Não depende dos nossos bens materiais, mas é uma realização humana dinâmica. Ou seja, depende da nossa lucidez entendida como autoconsciência (compreender quem sou e o que quero) e da nossa responsabilidade (assumir as consequências das nossas ações).
“Querer ser moral e querer ser livre são uma única e a mesma decisão.”, afirmava a filósofa. E é que, sem isso, sem um compromisso com a nossa própria liberdade e com a nossa capacidade de decidir de forma coerente com a gente, não poderemos ser felizes de forma alguma.
É importante aqui o conceito explorado por Beauvoir de que a felicidade não é um estado passivo.
No seu livro, ela desenvolve a sua concepção ética da liberdade, que é o fundamento a partir do qual se pode entender a felicidade como uma construção ativa e que se relaciona diretamente com a psicologia.
Ela afirma que a passividade — se a entendermos como deixar-se levar por expectativas impostas ou fatores externos — costuma estar associada a um menor bem-estar.
Conceitos psicológicos clássicos como autenticidade, agência pessoal ou responsabilidade afetiva estão relacionados com o que Beauvoir afirmava.
De uma perspectiva empírica, a ciência psicológica contemporânea apoia a ideia de que a felicidade ou o bem-estar duradouro não se obtêm apenas com estados passivos de prazer, mas estão associados a experiências de agência, autonomia, escolha consciente e participação ativa na própria vida.
Ou seja, está relacionada com a interpretação filosófica existencialista de Simone de Beauvoir sobre a felicidade: é uma conquista que requer liberdade e responsabilidade, e não algo que simplesmente acontece.
“É no conhecimento das verdadeiras condições da nossa vida que devemos extrair a nossa força para viver e a nossa razão para agir”, escreveu ela no ensaio. É sendo fiéis a nós mesmos, aos nossos ideais e aos nossos pensamentos que encontraremos a verdadeira liberdade e, com ela, a felicidade. Não podemos esperar que a felicidade chegue por magia.